A expectativa era grande, final de ano, época de reunir todos, como nos tempos em que eles eram pequenos, contava as horas para o reencontro. A casa ganhava vida novamente, bagunça geral, nem parecia que tinham crescido, virado adultos. Não tinham mais os avós nem mesmo eu minha esposa, mas era a mesma casa, ficavam nos mesmos quartos, como que ocupando os mesmos territórios do jogo, uma volta a um tempo que não existe mais.
O problema é que o tempo parece brincar com a gente, ele anda num passo que aperta quando está bom, e o nosso coração aperta junto quando perdemos o passo. Passa rápido, o antes e o agora, que já passou.
Quem vai leva aquele sentimento gostoso de visitar o que foi bom, até porque nossa memória seletiva e que nos preserva registra o melhor, com sabor de quero mais. Café da manhã tumultuado, sucos vitaminados, requeijão que pinga na toalha e que é limpa com o dedo que é limpo na boca, queijo quente na chapa com fila por ordem de chegada. Depois piscina com disputa de lugar na cadeira de sol e caldos nos menores, com direito a bronca por entrar molhado na sala e poças de água pela escada. E mais tumulto no almoço, no jantar, pipoca com guaraná num amontoado na sala para assistir o filme e dormir, talvez sonhar.
Quem vai leva guardado no porta-jóias cada anel dessa união preciosa, que já foi postado no Face porque compartilhar é preciso, e marcar cada um na foto também.
Quem fica tem o impacto de ver do tumulto ao vazio, que dói. Por mais cansativo que tenha sido, por mais que a rotina tenha sido alterada, ficar para assistir a cortina se fechar não é o melhor lugar da platéia. O foi bom enquanto durou se aplica aqui também, foi ótimo, foi inesquecível, mas agora, talvez só no ano que vem.
Para quem recebe, fim de festa não tem como ser alegre. É o filho que viajou, a neta que te abraçou, o amor que te deixou, o vazio que te envolveu.
Olhar para a casa sem o trânsito congestionado, sem a fila pelo pão, sem as gotas de requeijão na toalha, sem a trilha de poças pelo corredor, sem os corpos no chão não vendo o filme, é olhar para o vazio, é não ver.
Resta recolher as caixas de presentes, os papéis espalhados, as meias esquecidas, os calções no varal, calcinhas nos boxes, e esperar o fim de festa do ano que vem.
Bom demais, de contar as horas!

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