“Viver e não ter a vergonha de ser feliz”, engraçado isso, sinal desse momento, dessa avalanche de informações que radiografa as entranhas desse nosso planeta, expondo tudo e a todos.
Antes, a gente sabia que existiam populações inteiras morrendo de fome em algumas partes do mundo. Hoje, a gente tem um mapeamento estatístico preciso e se precisar, pode ilustrar com o Google Earth ou com a foto de um urubu espreitando um criança esquelética, prestes a servir de alimento, basta uma busca e um click.
Aí, ser feliz passa mesmo por um certo constrangimento, ter dinheiro passa a ser preocupante, nada que um breve balançar de cabeça acompanhado de um “a vida é assim” o faça esquecer desses conflitos e continuar na busca da felicidade e do vil metal.
Antes, ser artista era um dom, hoje, é necessidade. Saber viver é para artista, como pintar, compor, cantar. Saber perceber, dentre essa enxurrada de ofertas, cobranças, desejos, necessidades, ilusões, armadilhas, desafios, o que é essencial e o que é adereço, é uma arte. As vezes, ao perder tudo, a gente descobre que não precisa de nada. Ao conquistar um pouco, a gente imagine que não possa viver sem, ao finalmente ter tudo descobre que o tudo não preencheu o seu ser por apenas ter, e o tudo vira nada.
Viver é uma arte, cheia de pegadinhas, como um Indiana Jones na busca do Cálice Sagrado, é preciso cintura, é preciso garra, é preciso focar, é preciso saber perder tanto quanto saber ganhar. Mas mais do que tudo, é preciso amar, amar viver.
Saber viver é uma arte, tão preciosa quanto uma Monalisa, uma Pietá ou um assistir o por do sol comendo pastel e tomando garapa. Pois é, cada um tem a sua concepção sobre o que é viver bem, e o quanto isso vale.
Então, qual é a fórmula, onde está a receita, como aprender a arte de saber viver?
Um filósofo alemão chamado Leibniz já dizia, numa época em que a nossa população era de 300 mil habitantes, metade escravos, que existem três preceitos morais básicos para um viver em comunidade: não prejudicar ninguém; atribuir a cada um o que lhe é devido; viver honestamente. Preceitos esses que formam o princípio da ética que norteia o direito e as leis jurídicas.
Pronto, resolvido, basta seguir isso e vamos todos viver bem.
O problema é que um artigo que anda em falta, hoje em dia, é esse detalhe da tal da ética, palavra que tem origem na grécia, ethos, que significa “modo de ser”, “caráter”, “costume”. Falta em relação ao que já foi, hoje, em franca transformação.
Ética é isso, ela tenta estabelecer a forma mais conveniente de sermos e agirmos, o que é bom e o que é mau para cada um de nós. Nessa hora é que a coisa desanda.
Se você perguntar para um tatu, ele tem a mesma forma de pensar do tatu ao lado dele, sobre o que é bom e mau para ele. Para nós, seres inteligentes, o bom deriva da conveniência daquele momento, da mesma forma que o mau, assim, a ética vai refletindo o comportamento como um todo da sociedade, se moldando ao comportamento estatístico mais praticado. A ética do século passado parece bem diferente da deste novo milênio. E com isso a arte de viver se complica.
O melhor é procurar não fazer parte da boiada, seguir os seus instintos, atender à consciência do seu coração, não entrar na prática da ética do dia, mas naquela que o seu pai, seu avô, seu tataravô tinham como princípio. Conseguir isso, ahhh, é coisa pra artista.

Anúncios