Desde pequeno somos convencidos a valorizar a vida e fugir da morte. Algumas pessoas não conseguem viver com medo de morrer, quando na verdade, essa deveria ser a menor das preocupações na medida em que ela nada mais é do que a passagem para a verdadeira vida.
Me lembro quando criança tive a primeira experiência com essa temida senhora. Minha avó sendo velada na sala de casa e todos em volta chorando, tristes, muito tristes, tomando sopa e passando acordados, em volta do caixão, por toda madrugada. Vez ou outra, alguém contava alguma coisa engraçada e o grupo ria, o que de certa forma me confundia, não era hora de rir, afinal, minha tinha morrido. Lembro que por uns dias, olhava para a sala já refeita, com os móveis no lugar e via minha avó lá, imóvel, sem participar das conversas em volta dela.
Cresci com essa mística de que a morte finaliza tudo, pune os malvados, leva embora quem a gente ama, faz sofrer os que ficam. Para o grande sacana da novela, o perverso político corrupto, o monstruoso estuprador, a pior pena é condenar à morte. Talvez, de certa forma, até seja, você tira do jogo o mau jogador e não dá a ele a chance de desfrutar do percurso que o leva à uma nova dimensão, mais curtida. Mas é meio simplista, a morte não é tão mortal, tão nefasta, existe vida depois da vida.
A gente enxerga o que quer, e se nos esforçarmos, podemos ver a morte com outros olhos e não apenas dessa forma que salta às vistas. É verdade que a vida a gente sabe o que é, mesmo que seja dura, ou mole, mesmo que seja emocionante, ou morna, mas a gente sabe, mesmo que não saiba o que vem pela frente, ou não vem.
A morte é um breu, um abismo, um apagar de olhos, mesmo que apenas dessa matéria que a gente toca e conhece. A morte a gente não conhece, mesmo que já conheceu. E o não saber dá passagem para o medo tornar as coisas piores do que na verdade são, e aí, é melhor continuar vivo, mesmo que debilitado nesta frágil matéria, mesmo que morto sem saber que morreu, afinal, o pior é fechar os olhos, mesmo que já cegos.
Hoje, prefiro ver a morte de outra forma, porque do contrário, a vida fica sem sentido, como se eu a tivesse matado ao nascer.
Prefiro ver a morte como uma formatura dessa difícil escola da vida. Prefiro acreditar que ela é o meu passaporte para a imortalidade do ser, o fechar dos olhos na vida para abrir a eternidade do espírito.
Assim, eu participo do jogo sem me preocupar com o apito final, porque afinal, ele não termina.
A morte é a primeira verdade que a gente recebe ao nascer, se acostume com ela e deixe essa temida senhora fazer a parte dela no necessário processo de renovação, que traz vida, que recicla nossas esperanças por algo maior e menos finito do que essa nossa passagem.
A Morte é a outra face da Vida.

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