Não foi a primeira vez que li ou ouvi “doe sangue”. Desde criança essa frase me impressiona, algo que é tirado de dentro da gente, que sai por um tubo transparente para deixar claro, visível, que você está sendo esvaziado.
Fico pensando no primeiro que teve esta idéia, claro, tudo teve uma primeira vez, tudo. Teve um primeiro que olhou aquela bolinha vermelha que pendia daquele arbusto no meio do mato e ficou olhando, olhando, pensando se aquilo era de comer, se não fazia mal. Aí, este primeiro que parou para observar aquele pé-de-alguma-coisa, resolveu pegar uma bolinha daquela e, cheio de coragem, colocou na boca e mordeu. Não tinha gosto de nada, sem graça, deixou pra lá.
Não sei se foi o primeiro, o que deu a dentada, ou o primeiro que viu o primeiro tentar e não gostar. Mas deve ter tido o primeiro que provou, não gostou e pensou que talvez se tentasse de uma forma diferente, aquela bolinha vermelha podia ser interessante.
Imagino que este primeiro, que não parou na primeira dentada, deva ter pego algumas bolinhas dessas e tentou outras coisas. Nada.
Certamente teve um primeiro que pegou aquilo que antes eram bolinhas vermelhas e agora estavam lá, jogadas num canto, secando por falta de interesse, abandonas à própria sorte, talvez a um passo de virarem lixo. Este primeiro achou interessante que as bolinhas tinham secado e ficado marrons, duras, e tentou macerar, porque duras não serviriam para nada. Aí, pegou aquele pó, feito de pequenas pedrinhas daquilo que já foi uma bolinha vermelha que pendia do arbusto, pé-de-alguma-coisa, e jogou água fervendo em cima. Virou um caldo grosso, cheiroso, de gosto bom!!
Imagino este primeiro, que dá bolinha vermelha fez aquele líquido gostoso, na frente da minha máquina de café expresso. Ele não ia entender nada.
Se eu tivesse uma máquina do tempo, não tenho dúvida, eu gostaria de fazer um tour visitando os primeiros, todos eles. O primeiro que pensou na roda, o primeiro que descobriu que daquilo que as abelhas produziam dava para fazer uma pasta, que se transforma em cera, que com uma corda, no centro da pasta endurecida, dava para criar uma fonte de luz e iluminar a casa, de noite.
Ah, os primeiros!!
Engraçado, pensar em tudo isso só porque bem ao meu lado surgiu o primeiro ser que nitidamente estava precisando do meu sangue nesta manhã. E novamente aquela frase que me impressionava quando pequeno veio à cabeça: doe sangue.
Meu coração se dividiu novamente, digo novamente porque, principalmente nesta época do ano, era isso o tempo todo, de manhã até a noite. Novamente lembrei-me dos primeiros. Quem teria sido o primeiro a determinar, com segurança, quanto do nosso sangue a gente poderia disponibilizar sem que essa doação nos prejudicasse.
Pensava nisso quando numa demonstração de extrema agilidade e movimento certeiro matei, com a palma da minha mão direita, aquele pernilongo que sorrateiramente se postava ao meu lado, à espreita de sugar o meu sangue. O primeiro do dia.
Ah, nada como os primeiros!

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