Você já despertou alguma vez com a sensação de não saber onde está, em que quarto, cama, casa? E em que mundo?
Hoje levantei assim, quarto escuro, não costumo dormir com a janela fechada, do lado errado da cama, fico sempre no direito, sem saber em que cidade estava. Primeiro o medo, quase pânico, depois o olhar em volta tentando encontrar algo familiar, ao mesmo tempo em que buscava lembrar meus últimos passos. E por fim a conclusão, eu estava exatamente onde sempre tenho estado, nada diferente.
Neste momento percebi que esse era o problema.
Nada mudou, nada tem mudado, nada parece que vai mudar. Enquanto isso lá fora tudo só faz mudar, a gente olha, estranha e pergunta: que mundo é este? Ou pior: o que estou fazendo aqui? Por que as coisas mudam tanto fora e nada dentro da gente.
Levantei da cama, abri a janela e fiquei um tempo vendo a chuva cair. Meus cachorros, isto é, os cachorros da D. Ruth, do seu Carlos, da Patrícia, Olga e Carmem iam ter que esperar para sair. Pois é, me formei em veterinária e até agora o que eu faço com animais é passear com o cachorro dos outros. Ainda não sei se foi ironia, mas meu pai já olhou para mim segurando as correias daquele congestionamento de cães e disse que estou no caminho. Só pode ter sido ironia.
O vazio no meu peito se manifestou, fechei a janela e a escuridão voltou, se juntando à minha, foi quando pensei em voltar para cama. Quem sabe não seria outro quarto, com outra cama, num outro lugar. Aí, seria outro a levantar, não eu, nem cachorros a esperar ou pai para ironizar.
Voltei para os lençóis, do lado esquerdo da cama, na completa penumbra, pedindo aos céus para algo mudar.
A gente pode fugir do pai, dos cachorros, da profissão que não exerce. Mas não consegue fugir da gente, que vai estar ali, alerta, de olho em você, sempre.
Acorda!

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