Estava atrasado para um almoço, trânsito lento, sinal que abria e fechava sem nem engatar a marcha. Procurava com os olhos algo para me entreter, assim não focava o atraso e aquela droga de trânsito, foi quando vi um rapaz colar sobre a porta de ferro de correr: Aluga-se.
– Que coisa, pensei, passo praticamente todos os dias por aqui, nem tinha percebido que essa loja tinha fechado. E é de um amigo, estive na inauguração, bonito coquetel, tantos planos, e agora estava para alugar.
Finalmente os carros andaram, consegui pegar o sinal ainda verde, a loja ficou para trás, assim como muitos projetos, muitos sonhos, muitas tentativas.
Por sorte o cliente pegou também congestionamentos, sinais fechados, chegamos praticamente juntos no restaurante. Mas mesmo a companhia sendo agradável, papo bom, a cena do rapaz colando aquele Aluga-se não me saia da cabeça. Pensei em ligar para o meu amigo, perguntar a razão das mudanças de planos, mas fiquei sem coragem, achei melhor criar uma situação que eu encontrasse com ele sem querer, querendo, como diria o Chaves.
Quando voltei para casa a noite, tornei a pensar na loja, no rapaz, mas agora minha preocupação era entender a razão de um mero cartaz ter me abalado tanto.
Meu pai já dizia quem cavuca, acha, e escavar fundo os nossos sentimentos é mexer muitas vezes em caixas de pandora, uma frestinha pode resgatar medos sufocados há muito. Abri uma garrafa de vinho, sentei em uma cadeira na varanda e comecei a vasculhar minhas prateleiras enquanto levava a taça à boca.
Comecei lembrando das vezes que buscando saídas encontrei mais dificuldades, e quando isso se repete, os que estão à sua volta começam a entender que o problema está com você, e não com as circunstâncias, o que estimula a você começar a pensar assim também. O que estimula a quem está colado ao seu lado pular fora do barco, afinal, tem gente que acha que, se você é o comandante, que afunde sozinho com o navio. Aí, a placa de Aluga-se vai para o seu coração, não só para o negócio que você deixou ou está prestes a deixar.
Quantos não estão, neste exato momento, rabiscando planos, detalhando projetos, investindo todo o seu íntimo em uma nova empreitada. Um outro tanto está exatamente fazendo das tripas coração, para não ter que usar aquele mesmo cartaz.
Não só para um novo negócio, mas para um novo amor, uma nova conquista.
Nessas horas, a gente se dá conta que estamos todos no mesmo movimento, de tentar, buscar, tropeçar, cair, levantar e voltar a tentar, buscar, para continuar seguir tentando. Sempre.
Metade da garrafa já havia servido de combustível para os meus pensamentos rodarem, o efeito do álcool correndo lado a lado com os meus glóbulos vermelhos relaxava minha tensão tornando minha busca mais solta, leve.
Aquele sentimento de pesar, sombrio, que me cutucava cada vez que lembrava do rapaz colocando o cartaz sobre a porta de ferro de correr, neste instante se modificou, e eu senti um cutucão de orgulho em relação ao meu amigo. Ele estava cumprindo com a proposta de seguir tentando, certamente estaria rabiscando alguma nova ideia para substituir aquela que não deu certo. Mais dia, menos dia, um novo convite de coquetel deve pintar.
Da próxima vez que passar em frente a um cartaz de Aluga-se, vou fazer uma reverência ao ex-inquilino. Ele tentou, se não deu certo, não faz a menor diferença. Está na hora de começar a enaltecer a iniciativa, nem tanto o resultado.

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