– Meu Deus, eu tô vivo, eu tô vivo!!!
Rogério acordou no meio da noite da forma mais agitada, uma braçada e lá se foi o abajur no chão, o que contribuiu para ele ficar ainda mais assustado. Começou com as duas mãos, ao mesmo tempo, a apalpar os braços, cabeça, peito. Quando se deu conta que estava no seu quarto, que estava apenas sonhando, que estava tudo bem, teve vontade de chorar, mas ficou firme, respirou fundo e olhou em volta.
– Era sonho, era sonho!!! Sonho não, um puta pesadelo!!! Mas parecia verdade, na hora que fecharam o caixão, eu não aguentei, sofro de claustrofobia, ainda bem que acordei!! Graças a Deus, eu não morri!!
O quarto estava todo escuro, Rogério, ainda deitado na cama, foi com cuidado na beirada tentando achar o abajur no chão. Puxou a peça pela cúpula, a lâmpada não tinha quebrado, segundos depois a luz de 20 w iluminava o quarto de forma suave. Rogério voltou a se acomodar no travesseiro, olhou para o teto e com a mão direita desligou o abajur.
– Não consigo dormir, não vai dar… Essa foi por pouco!!! Amanhã faço 60 anos, e tinha morrido. Amanhã não, hoje, já é hoje!
Rogério ligou novamente o abajur e conferiu o relógio, quatro horas da madrugada do dia do seu aniversário. Ficou um tempo olhando o teto, pensando.
– 60 anos, como passa! 60 anos… Puta merda, 60 anos!!! Quanto tempo mais eu vou viver?? É muito menos do que eu já vivi!!! Cacete!! Com sorte mais um terço! Não, preciso fazer alguma coisa, preciso tomar umas decisões, não posso mais desperdiçar meu tempo com bobagem… 1/3 mais, se parar de fumar, um pouco mais.
Rogério virou para o criado, pegou o caderno e a caneta que estavam lá, colocou o travesseiro encostado na parede e sentou na cama, com o caderno apoiado sobre o outro travesseiro colocado sobre suas pernas. Apoiou a ponta da caneta entre seus lábios, olhou para o alto, ficou um tempo, e começou a escrever.
Primeira resolução: vou parar de fumar, 45 anos fumando é fumaça pra dar com pau, tá bom, chega! Segundo uma pesquisa, três anos a mais de vida.
Segunda resolução: não desperdiçar mais o meu tempo, cortar tudo que seja perda de tempo. Essa é boa! Perda de tempo, “jamé”!!! Preciso fazer uma lista.
1. Não me convidem mais para velório, morreu, meus sentimentos, tô fora.
2. Não falo mais sobre a vida dos outros, prefiro gastar esse tempo com a minha. Essa é boa, muita falação, rancor, inveja, frustração, não aguento mais isso.
3. Convidar a vizinha pra sair. Isso eu tinha que ter feito ontem! Mas antes, esperar o marido dela sair para o trabalho. Tem uma espera aí, mas tudo bem, é positiva!
4. De agora em diante, sem ficar pendurado na internet, facebook, joguinhos, paciência, fazendinha, acabou! Só de ficar pesquisando frases, clips de músicas, piadinhas, pra entreter o pessoal, come o maior tempo, fim!
5. Não ficar mais jogando conversa fora em boteco, com os amigos, isso é a maior perda de tempo, o maior papinho redundante e de produtivo, nada.
6. Chega de ficar parado olhando o por do sol, deve ter coisa mais importante pra investir o meu tempo.
7. Aquelas intermináveis preliminares na hora de dar uminha também é perda de tempo, vamos chegar, tirar a roupa e ir direto ao assunto.

Sete é mesmo um número cheio de poderes. Ao terminar a sétima resolução, Rogério parou e ficou relendo o que escreveu, pensativo. Havia muitos mais itens para relacionar que soavam como perda de tempo como brincar na chuva com os netos se ensaboando como se estivesse no chuveiro, papos intermináveis com o pai, que já estava com início de Alzheimer, e repetia tudo a toda hora, e muitos outros.
Rogério pegou o maço de cigarro sobre o criado, acendeu um, olhou para a lista, dobrou algumas vezes enquanto rasgava. Colocou os pedacinhos no cinzeiro e com o isqueiro fez uma fogueira.
– Perder tempo é bão demais!!!

Anúncios