Pau pra toda obra é aquele pedaço de madeira que serve tanto para escorar uma laje, quanto para tapar um buraco ou servir de rampa de acesso, ou mais um tanto de usos, qualquer um. Deoclésio era uma pessoa assim, jogava em qualquer posição, de goleiro a ponta esquerda, de motorista a vigia noturno, de encanador a jardineiro.
Não tinha tempo quente, precisou de uma mão, ele entrava com as duas, e até com a fruta.
Todos no bairro já sabiam disso, e bastava alguém comentar que estava precisando de alguma coisa que já emendavam: fala com o Deoclésio, chama o Deoclésio, passa pro Deoclésio.
Até que um dia foi convocado pela Dona Marta, oito e meia da manhã, tinha que ser nesse horário. Deoclésio chegou com a sua maletinha porta-tudo, macacão, bonezinho, ainda a tempo de acenar para o marido da Dona Marta que saia com o carro e tocou a campainha da casa. A primeira vez. A segunda. Na terceira, deu uns passos para trás para ouvir melhor a voz que vinha da janela do segundo andar: “a porta está aberta!!”.
Deoclésio girou a maçaneta, entrou com todo o cuidado, parou em frente à porta após trancá-la e esperou. Nada.
Foi quando ouviu uma voz que vinha de algum lugar próximo da escada que se comunicava com o andar de cima: “Sobe aqui, Deoclésio!!”.
Com o cuidado e respeito que sempre teve ao entrar na casa de clientes, Deoclésio subiu os primeiros degraus da escada intrigado, não era comum este tipo de situação. Conhecia a Dona Marta há muito tempo, já tinha estado na casa fazendo alguns reparos, mas ela sempre o recebeu na porta e muitas vezes saia enquanto ele fazia o serviço.
Deoclésio chegou no andar de cima, parou no corredor que dava para os quartos. olhou para a esquerda, direita. Nada.
Agora a voz veio nitidamente do final do corredor do lado direito, era o quarto do casal, Deoclésio já estivera lá trocando o chuveiro da suíte, o boyler do aquecedor tinha dado problema, o armário virou uma cachoeira, tragédia total!
– Aqui Deoclésio, no quarto!
Deoclésio caminhou em direção ao quarto e parou frente à porta que estava entreaberta sem saber se entrava ou esperava, novamente a voz, agora clara e limpa deu o comando.
– Entra Deoclésio!
Ele empurrou a porta, cheio de cuidados, na verdade bem sem jeito, a cena que viu vai ficar gravada em sua mente para o resto da vida: Dona Marta, absolutamente nua, em plena comemoração dos seus oitenta anos deitada na cama, bem de frente à porta.
Imediatamente, Deoclésio voltou com a porta, sentiu o ar faltar. A voz novamente, agora de uma forma divertida até, mais uma vez determinou a ação.
– Para com isso, chegou até aqui, agora entra com tudo, Deoclésio!!
Coringa é aquela carta que substitui qualquer outra na montagem do jogo e se a vida é um grande jogo, nada mais natural do que usarmos os nossos coringas.
– Parabéns, Dona Marta!
O Deoclésio era mesmo pau pra toda obra.

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