hediondo
he.di.on.do
adj (cast hediondo, do lat foetibundu) 1 Que provoca repulsão. 2 Repugnante. 3 Horrível. 4 Que cheira mal.
Quando se acrescenta a palavra “Crime” na frente, temos algo realmente abominável, que não merece nenhuma consideração, pelo contrário, a vontade é de matar, pelo menos como força de expressão.
Tony tinha um dos empregos mais desagradáveis que existem, e ao mesmo tempo, um dos mais solicitados, reflexo direto da nossa condição como ser humano. Tony era policial. E daqueles de uma delegacia de periferia, ou seja, para sair de casa tinha que ser com camisa, calça comuns, sem dar nenhuma bandeira do seu ofício. Andava sempre de mochila no seu ir e vir, com seu uniforme, arma, bem escondidos, nem os vizinhos sabiam o que ele fazia.
Já eram muitos anos nessa vida meio de agente secreto, e achava que já havia visto de tudo, até aquele dia.
Os investigadores federais estavam em plena Operação Anjo da Guarda, e tinham descoberto dez núcleos de uma grande rede de pedofilia que abrangia oito estados: Rio, São Paulo, Paraná, Maranhão, Minas, Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. O governo da Espanha havia alertado nossas autoridades sobre a troca de fotos feitas por um site local. Caso igual aos já ocorridos na França, Portugal, Itália, Estados Unidos e Argentina nos últimos dois anos.
Tony estava dando apoio aos federais já que um dos computadores que seriam apreendidos estava justamente na sua área. Melhor que nunca tivesse estado lá.
Prenderam cinco pessoas na casa, entre eles um advogado e um professor, mais de 200 mil fotos e 400 vídeos mostrando sexo com crianças e adolescentes, inclusive bebês.
Já há mais de dez anos rompemos a barreira do tão esperado segundo milênio, avançamos em todos os campos da atuação humano, certas novidades tecnológicas fariam nossos avós, bisavós, terem surtos nervosos. E ainda temos entre nós seres de carne e osso, cérebro, músculos, capacidade de raciocinar, se locomover, como qualquer um, que praticam, se satisfazem emocionalmente através da pedofilia.
Diariamente, centenas de pessoas são descobertas, denunciadas, presas, em toda parte do mundo por abuso infantil. Pais com filhos, avós com netos, professores, religiosos, seres de todas as classes sociais. Milhões continuam impunes, na surdina.
Com tudo isso, ainda somos capazes de nos sentirmos superiores a alguém, aos desprezíveis animais irracionais, sem nos darmos conta que fazemos parte desse grupo, por mérito próprio, por afinidade, comportamento, acrescido da nossa maldade pensada.
Hediondo, claro. Mais do que isso, triste, lamentável, vergonhoso.
Distúrbios patológicos fazem parte dessa nossa matéria tão falível. Crimes desse naipe demonstram o quanto precisamos ainda ascender, como categoria de seres, para merecermos a classificação de Humanidade. Enquanto isso não acontece, e só irá ocorrer quando todos estivermos na mesma sintonia do Uno, vamos baixar nosso ego, refletirmos mais, nos preocuparmos mais em procurarmos fazer a nossa parte tendo sempre em mente a ajuda aos que estão ao nosso lado, como exemplo e auxílio.
Tony trocou de roupa, para voltar para casa, ainda com as imagens que acabara de ver na cabeça. Não sabia se conseguiria continuar policial depois desse dia.

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