Quanto mais a gente roda, mais a coisa entorta. Zgfild andava pela rua absorto em seus pensamentos, mas alerta, sempre alerta. Um olho na calçada, o outro nos carros que passavam, hora em velocidade, hora presos na morosidade do trânsito. Sua preocupação maior era a permanente possibilidade de um daqueles carros, verdadeiras armas da morte, perderem o controle e invadirem a calçada fazendo um estrago total.
Zgfild andava de olho neles, com o canto do olho, sem saber qual seria a melhor posição, se próximo da parede ou na beira do meio-fio. Na parede, caso um bólido desgarrasse, seria esmagado e viraria patê. No meio-fio, teria mais chance, com um pouco de sorte, voaria para dentro de uma loja. De preferência numa que vende colchões.
Por outro lado, uma simples subida, daquelas paralela ao meio-fio, faria um arrastão atropelador, na parede estaria livre dessa possibilidade. Por isso, andava meio em zig-zag, pela parede, pelo meio-fio, pela parede, pelo meio-fio, assim deixava o desfecho para a sorte, ou azar.
Alguns estudos creditam que as causas do distúrbio paranóide podem ter influências genéticas, mas há evidências de que o abuso de drogas pode produzir pensamentos ou comportamentos paranóides, ou agravar sintomas já existentes. Mas é comprovado que os casos diagnosticados cresceram muito a partir do século XX, o que sinaliza para o stress como agente desencadeador potencialmente importante.
A verdade é que os Zgfilds da vida estão espalhados por todo canto, seja por uma das causas acima, ou todas combinadas. Há os que acham que estão sendo perseguidos pelos chefes, no trabalho, os que se sentem traídos pelo companheiro, baseados no mais ínfimo indício de infidelidade. E dá-lhe pressão, dá-lhe desconfiança, dá-lhe paranóia.
Zgfild fazia seu caminho habitual, de lá pra cá, de cá pra lá, quando seu iPhone tocou, era o cliente, que ficou de depositar o dinheiro do free-lance havia duas semanas.
– Tudo bem, eu entendo que surgiu um imprevisto, mas eu cumpri com a minha parte, você cumpre com a sua!!
Neste momento, iPhone próximo a orelha direita, parado próximo à parede, Zgfild sente um objeto pontudo cutucá-lo próximo da cintura. Olhou para a direção da pontada e deu de cara com um garoto, 15 anos no máximo, falando baixinho pra ele.
– Passa o celular, ou eu te furo!!!
Zgfild pediu licença para o cliente e se dirigiu para o garoto.
– Ah, não, agora não!!! Estou querendo falar com esse cliente faz tempo, ele sumiu, fugiu, agora não dá. Espera aí, cacete! Não me deixa nervoso!!!
O garoto olhou pra ele assustado, enquanto Zgfild voltava a falar com o cliente, bravo, ríspido, autoritário. O bandidinho ficou de lado, cutucando menos, sem saber se ficava esperando ou caia fora.
– Me dá uma data, quando você vai depositar??? Eu estou aqui, sendo assaltado por um pirralho, correndo o risco de um motorista idiota perder o controle do carro, subir na calçada e esmagar eu e o bostinha na parede, sangue pra todo lado. Vai, rápido, me dá uma data!!!
Ao ouvir aquilo, o deliquente mirim não teve dúvida, recolheu a lâmina, girou para a esquerda e saiu correndo, de olho nos carros que passavam, hora em velocidade, hora presos na morosidade do trânsito.
Zgfild terminou de falar, desligou o celular, olhou para o garoto correndo, para os carros que passavam. Sem dúvida, estavam todos contra ele!!

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