CampiCoraçãoFazia algum tempo que eu havia separado, na verdade anos. Claro que isso faz com que certas mudanças se instalem intimamente, a mais complicada delas, o medo de uma nova experiência amorosa. Não é uma questão de idade, de beleza ou oportunidade, mas de querer ou não arriscar a viver novamente todas as dores e sofrimentos de uma possível separação. Que implica, por outro lado, em arriscar não desfrutar os prazeres e felicidade de uma relação a dois.
Esse era o tema da conversa que rolava dentro do carro parado em frente à praça, entre eu e Luzia. Nos encontramos no aniversário de um amigo, que não era muito amigo, mas não a conhecia, foi mesmo o tal do amor à primeira vista. Saímos da reunião pensando em fechar a noite em um barzinho, papear, nos conhecer, e acabamos dentro do carro depois de rodar pelos tumultuados pontos das baladas de sábado. Lá ficamos conversando, conversando, sem nenhuma aproximação física, um exercício de boca à distância.
Quando ela me deixou em casa, estava sem carro, já era dia fazia um tempo, me lembro de ficar rolando na cama sem entender ou tentando entender o que havia acontecido. Minha memória pedia mais um tempo para me responder quando tinha sido a última vez que havia ficado apenas conversando com alguém de outro sexo durante a noite toda, ainda mais dentro de um carro. Meu coração parecia implorar por uma chance, só mais uma, para que pudesse fazer o que sabe melhor.
Ficamos nesse embate um bom tempo, ele citando frases campeãs de audiência nos murais do Facebook, eu tentando trazê-lo à realidade, buscando recordá-lo em quantos pedaços se partiu da última vez. E do trabalho que tive em colocá-lo de pé, a ponto de estar novamente preparado a aceitar o convite do amigo, que não era tão amigo, nessa noite.
Coração é bicho burro, ingênuo, daqueles que reconhecem a armadilha e caem nela sempre, como se fosse a primeira vez. Me imponho a obrigação de estar alerta, pensando exclusivamente nele, só nele, mas basta uma noite como essa e já me pede que eu baixe a guarda. Não leva em conta o meu desejo de aposentar, não pensa em como ele fica perturbando minha autoestima, nada, só pensa em disparar e pulsar como um balão inflado. E quando se dá mal, sou eu quem paga o pato, com cara de tatu, num canto, como cachorro abandonado. Bicho bobo.
No fim, cedi aos apelos, saí algumas vezes mais com Luzia, nos casamos, tivemos filhos, netos, e uma vida maravilhosa juntos.
Meu coração mostra estar apertado enquanto deposito as rosas no local onde Luzia descansa. Percebo nessas horas que acertei em ouvir os apelos do meu companheiro, que não anda lá bem das pernas, não mais por assuntos de amor, mas por cansaço das fibras mesmo, normal. Ele sempre me agradece a chance que dei, e eu também sou grato por tê-lo como guia.
Hoje reconheço que me dei mais mal quando não o ouvi do que o contrário, e quanto mais cedo a gente se der conta de que ele é quem deve estar no comando, melhor, muito melhor. Vamos bater cabeça, ser enganados, traídos, mas é ele que me faz deitar a cabeça no travesseiro e sentir a consciência tranquila. Fazer o que ele manda será sempre a melhor alternativa, mesmo que num primeiro momento a sensação é de que nos demos mal. Tudo bem, não importa, quando isso acontece, basta chamar um outro companheiro, o tempo.
Não saberia viver sem eles.

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