Qual a profundidade do mar? Fundo, muito fundo. E isso dá medo, no mínimo aflição, para aqueles que relutam em se ver medrosos.
Melhor ficar na superfície, tipo aquelas piscinas de crianças, a gente se sente seguro, nada de pior pode acontecer. Por outro lado, meio sem graça, não?
Será que é por isso que relutamos ir fundo nas coisas? Quanto mais fundo, mais medo? Mais conhecimento, mais compromisso, mais envolvimento? Quanto mais fundo, mais a gente se mostra, e quanto mais sabem da gente, menos a gente surpreende ou menores as opções de lugares para a gente se esconder.
Ir fundo toma mais tempo, ir fundo implica em se dar, e hoje, o lance é receber.
Talvez por isso a gente dê tanto valor à aparência, ao acabamento, mesmo que ele tenha sido feito sobre material de segunda, não importa, o que vale é o que está sendo mostrado na superfície.
Vivemos os tempos da valorização ao verniz, ao parecer ser. Compramos o que parece ser interessante e vendemos o que os outros parecem gostar.
Essa onda virtual veio em boa hora, a gente se mostra sem aparecer, e aí podemos parecer o que quisermos. Parecemos felizes, parecemos inteligentes, parecemos engraçados, parecemos cultos, parecemos cidadãos, parecemos éticos, parecemos humanos.
E quando algum candidato a celebridade invade uma escola e mata crianças, a realidade bate fundo, deixa longe a superfície, mostra o que nós ainda somos capazes de praticar apesar dos mais de cinco mil anos de existência.
Nessa hora perguntamos o que está acontecendo com a humanidade, como se fossemos de outro time. Não sei qual a minha participação nisso, e como você, poderia até ter a reação de “nenhuma”. Mas lá no fundo, onde a gente não gosta de ir, o comportamento coletivo é uma somatória das ações individuais, e também da falta de ações.
A verdade é que incorporamos o culto ao verniz porque é o termômetro que salta às vistas, porque é instantâneo e não implica em enxergar com profundidade, mesmo que isso resulte em avaliações distorcidas, o que vale é rotular, rápido.
Porque transitar na superfície é mais cômodo. Se aprofundar, buscar mais fundamento demora e tempo é dinheiro, e quem consegue a moeda é porque é bom, capaz, bem sucedido, o como não importa.
Enquanto isso, continuamos discursando sem praticar, apontando sem nos olhar, parecendo sem ser. Até quando? Enquanto respirarmos.

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