Quando você se vê novamente sozinho dentro de casa, depois de casar separar, casar separar, certas tarefas que antes eram feitas por alguém, agora não são feitas, se você não fizer. Desde a mais simples, lavar um copo ou cueca, até as que ficaram complexas como montar o seu saco de lixo.
Antes, acho que era assim, colocava-se tudo dentro do saco e alguém que levasse embora. Hoje, a pressão ecológica, cuidado com o meio ambiente, fez do lixo um momento de tensão, o quê com quê?
No início me socorri com o Google, aliás, grande companheiro, safo, sempre presente, sabe tudo. Composição esclarecida, agora era preciso memorizar os dias que o caminhão do lixo passava, para os meus hábitos não perderem a carona. Hábitos porque nosso lixo é um testemunho de consumo, e os lixeiros mais atentos passam a saber o que acontece dentro da sua casa.
– TV de LED, hein dotor, 46 polegadas??!! O senhor é chegado num suquinho!! Esse pró-seco deve ser muito bom, caro? Nada como um ar-condicionado nesta época!!
Depois que decorei os dias do caminhão, terça, quinta, sábado, parei de sair correndo alertado pelo barulho da chegada deles, coloco na noite anterior e pelo menos me poupo dos comentários do Sherlock de luvas.
Mas o fato de sempre eu ser o agente que dá o último nó no saco me fez parar, pensar e reverenciar este serviço que muitos nem se dão conta que tem. O que seria da nossa vida sem os lixeiros. Como é bom a gente ter alguém que pega nossas tranqueiras e dá um fim nelas, nosso único trabalho é juntar tudo num saco e deixar na porta de casa que eles se viram.
Lembro que uma vez peguei um 4 de julho com greve de lixeiros em Nova Iorque, a cidade virou um caos, foi a primeira vez que tive o impacto da falta deles.
As pesquisas falam que 70% das pessoas trabalham em atividades que não gostam, se fosse pesquisado só entre os lixeiros, certamente iria bater nos cem. Uma prova de que este mundo não foi formatado para uma sociedade igual, onde todos teriam as mesmas oportunidades e seriam felizes no que fazem. Quem iria querer ser o lixeiro do bairro?
A gente devia agradecer todo dia a presença de quem faz este serviço. E inspirado neles, começar a fazer este serviço em nós mesmos. Nossa produção de lixo pessoal tem aumentado a cada dia, e não estou falando de casca de banana ou lata de cerveja.
Essa correria do dia a dia, essa falta de tempo, paciência, solidariedade, está nos fazendo produzir lixos mentais, de atitudes que, por não jogarmos fora, por não termos um lixeiro a quem passar a bola, permanece com a gente. Mágoas, ressentimentos, mal entendidos, desamor, ódio, raiva, isso nos polui, envenena, e faz mal, a nós e a quem está em volta. É uma sobreposição de lixo compartilhado que não se vê, mas se sente.
O lixo de casa ainda tem quem leve, agradeça a ele.
O nosso lixo depende da gente identificar, juntar, embalar.
Difícil? Comece tentando monitorar suas reações, pensamentos, ajustar seus impulsos e jogue tudo de ruim fora. Se precisar, peça ajuda, todo mundo tem os seus lixeiros espirituais, que como os de rua, estão aí também para isso, peça e eles levam.
Ah, não se esqueça de agradecer também.

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