Se dirigir, não beba. Se beber, me chama. A frase estava estampada na camiseta de Fernando, um jovem bonito, atlético, 20 anos, e que sofria do mal mais comum desse nosso país, a falta de exemplos. Achava que podia fazer o que queria, na hora e do jeito que queria, ninguém é punido aqui, dizia, só os ferrados. “Se o mundo fosse bom, justo, o cara que criou morava nele. Nem as caras dá!”
Quando saiu a lei do bafômetro, foi um dos primeiros a ser pego, perdeu a carta e duas semanas depois já estava tudo certo, seu pai era bem relacionado, tinha amigos em postos estratégicos, perder a carta deve ser para os ferrados, mesmo.
Já conheci muitos Fernandos na vida, que quando jovens tinham o apoio do grupo de amigos para aprontarem e curtirem tudo que tinham direito. E respaldo de quem os provêm e garantem as noitadas. Depois, eles crescem, geram Fernandinhos, que a exemplo dos pais, tudo podem em nome do “corre que a vida é curta”. E de falta de exemplo em falta de exemplo um dia a gente se dá conta que o mundo tem cada vez mais “Gersons” nas ruas, e quem não está focado em levar vantagem em tudo está fadado a perder o trem da alegria.
Aí, nos vemos obrigados a ver o Estado criar formas de controle e punição “rigorosa” aos faltosos, o quê normalmente implica em criar multas, afinal, as pessoas só respondem de forma correta quando o bolso é punido de maneira exemplar. E o Estado, assim, agradece a oportunidade de encher os cofres com novas arrecadações, que vão alimentar, muitas vezes, os desvios de dinheiro que nutrem os “Gersons” das autoridades, parentes próximos e afins dos que curtem a vida. E o ciclo de viciados dos nossos tempos se forma com total eficiência e oportunismo.
Nesse jogo de empurra, não se cria consciência, se cria medo de ser pego, uns têm, outros não, até porque, quem tem paga, mexe os pauzinhos, aciona os amigos, como fez o Fernando para ter a carta de volta.
Ele estava inclusive mexendo na carteira, onde a carta estava, depois de beber muitas, muitas cervejas, daquelas importadas, claro, inclusive tinha acabado de jogar uma latinha pela janela. Foi uma distração besta, a carteira não teve culpa, nem o fato de estar a 140 km por hora na sua Mercedez preta, modelo do ano. Nem mesmo a falta de reflexos por tanto álcool no sangue. Fernando perdeu o controle do carro, que subiu na guia da calçada e saiu capotando e só parou ao bater em um carro da polícia que estava parado. Era uma da manhã, os dois policiais que estavam na viatura tiveram ferimentos leves, assim como sua namorada, que estava com ele no carro.
Fernando morreu na hora, o air bag não conseguiu salvá-lo, nem os relacionamentos do seu pai que foi acordado àquela hora da madrugada.
O Cara que criou este mundo, e que, segundo Fernando, não mora aqui, provavelmente o estava esperando para um bate-papo sobre as coisas da vida, pessoalmente.

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