Juliana era uma pessoa boa, antenada no mundo, nas pessoas, e também buscando sua ascensão espiritual, a sabedoria sobre a vida e o que estamos fazendo aqui, afinal. Conheceu um grupo de afins e essa identidade fez com que ela se encontrasse e passasse a se dedicar de corpo e alma em suas buscas.
A cada dia via suas convicções se fortalecerem, os amigos frequentavam o mesmo núcleo de estudos e isso fazia com que seus preceitos fossem alimentados pela mesma fonte, sem contar que o Mestre do grupo era uma pessoa sábia, extremamente sábia e a verdade estava com ele, sem a menor dúvida.
Com o tempo, essa boa pessoa conquistou a certeza absoluta de que tinha encontrado o caminho, o melhor, o mais íntegro, aquele que Deus estabeleceu como a forma correta de chegar até Ele. Sua tarefa seria levar a boa nova às pessoas e tentar fazê-las enxergar a verdade absoluta.
Certa noite, caminhando pela rua, após passar pela padaria de volta para casa, encontrou um mendigo dando uma geral em uma lata de lixo. Seu coração apertou, pegou um filãozinho dentro da sacola e foi de encontro a ele.
Olhos escuros e cansados, vestindo trapos, o senhor olhou para ela com ternura e agradecimento. Deu alguns passos para trás e sentou no degrau da escada de uma loja, fechada àquela hora, Juliana sentou ao seu lado.
– Ahhh, e não é que os anjos do Senhor fazem hora extra??
– Eles trabalham o tempo todo, o senhor não acredita?
– Eu acredito no pão, pra matar a fome.
– O senhor é ateu? Ou um católico já descrente… um…
– Moça, na hora da fome, não importa muito a religião. Dizem que não é bom comer carboidratos a noite, mas acho que vou abrir uma exceção.
– O senhor é engraçado, se expressa bem, devia ter Jesus no coração, Ele salva.
– Verdade, também acho, como acho que você me avalia pelas minhas roupas, minha sujeira, e está mais preocupada com a minha crença do que em quem eu sou.
– Não, não é isso… eu queria…
– … queria me cadastrar num vidrinho, determinar quem eu sou, em que acredito… normal. Eu já tive casa, emprego, família, e não é porque estou aqui, pegando o que sobra no lixo, que sou menos do que já fui. Certamente eu tenho menos, mas não sou menos.
Juliana olhava para aquele senhor agora com outros olhos, admirada, envergonhada, sem palavras. Ele continuou.
– Não se sinta mal, eu entendo, normal. Eu não estou por aqui, assim, completamente contra a minha vontade, nem porque quis. Aconteceu, como tudo. Nem por isso deixei de acreditar ou me afastei daqueles em quem você acredita, pelo contrário, me sinto mais próximo deles agora. Converso com Deus toda hora, não preciso ir em nenhum lugar para estar com ele, um horário marcado, um templo, eu sou o templo, onde Ele também mora.
Aprendi mais aqui, do que antes, aí. Aprendi a ser eu mesmo, de terno ou assim, aprendi a não ver as pessoas pelo o que elas aparentam ou querem aparentar, mas pelo o que fazem. Já sei quem você é pelo seu gesto, não preciso saber em quem você acredita, por qual caminho você vai. No fim, vamos todos nos encontrar no mesmo lugar, não importa por qual trilha você chegue, e isso é o que importa. Não é?
Os olhos de Juliana estavam cheios d’água. Ela ainda deu um beijo no rosto do senhor, se levantou e voltou a andar de volta para casa.
A sabedoria é um balão que infla sem parar, e não tem apenas uma fonte de entrada, mas várias, algumas que você ou a Juliana nem imaginam ou consideram.

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