Leonardo era professor catedrático da faculdade de ciências sociais, dedicou sua vida aos estudos e ao trabalho de repassar esse conhecimento às novas gerações. Sem o nível salarial, ajudas de custos, bônus e demais privilégios e picaretagens que fazem dos nossos políticos os mais bem afortunados do planeta. Não, professor, classe média, com uma vida sem privações, mas sem muitas guloseimas.
Até que chegou o dia de entregar o giz. Sua audição não andava lá essas coisas, percebia que muito menos seu reflexo e, apesar dos pedidos da diretoria para continuar como uma espécie de consultor, integrante do conselho, resolveu deixar o palco enquanto podia transpor a porta da saída por conta própria.
“O tempo é muito esperto, ele sabe como enganar a gente.
Ele vai levando, passando, disfarçando, e quando você menos espera, já é final do dia, e depois, final do mês, e aí, final do ano. Um pouco mais e é final de vida.  Ele é muito esperto mesmo.”
Seus pensamentos estavam circulando por todas estradas de sua vida, desde a infância numa cidade do interior, a ida para a capital para os cursos superiores, o encontro com Lisa com quem se casou e viveu feliz, extremamente feliz por exatos 30 dias. Ela teve uma complicação numa operação de vesícula e partiu cedo, muito cedo. E após o amor por Lisa, Leonardo viveu pelo amor de ensinar.
“Amar foi uma experiência que para mim não valeu a pena. Suas marcas são profundas e nesse mergulho, quanto mais fundo, mais mortal. Não importa quanto fôlego você tem, sempre falta ar, o coração acelera e o vazio no peito se forma sem avisar que vai doer, e dói, muito.
Amar é conquista que não se tem posse, se compartilha, mas não é seu. Se você solta, vai porque estava muito solto. Se você prende, foge por se sentir preso. E se você apenas ama, como eu, pode faltar, da noite para o dia, sem dizer adeus. Eu amei mais do que devia amar, e sofri, e chorei, e nunca mais quis.
Agora vou ficar sem os meus meninos, já tinha ficado sem a minha Lisa, não tenho mais por quê ficar aqui.”
Neste momento, os olhos de Leonardo fecharam, seu corpo ficou imóvel na poltrona onde lia, o livro caiu sobre seu colo e lá ficou.
Foi quando Leonardo viu surgir Lisa à sua frente, linda, com o mesmo sorriso de quando partiu. Ficou confuso, sentiu seu coração acelerar, como o de um adolescente apaixonado.
– Lisa??
– Oi querido, que saudade!
– Mas… então…
– Meu amor, nós estamos muito orgulhosos por você ter completado mais uma etapa. Você é um exemplo, meu amor. Não pense, jamais, que amar não tenha valido a pena, amar é a sua essência. Em toda sua vida você se moveu pelo amor, em todas as suas formas. E vai continuar assim, sempre, como o nosso amor, que não morre nunca.
Quando abriu os olhos, Leonardo ainda tinha a imagem de Lisa, linda, com o mesmo sorriso que o conquistou. Era o seu amor que o mantinha vivo, seguindo.

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