Arthur era metódico, prático e extremamente místico, o que por si já era um conflito digno de Trípoli. Sua vida sempre planejada e programada, sem variações, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, mudava apenas na quarta-feira, um baralhinho com os amigos, com direito a futebol na TV e petiscos, regado a scotch 12 anos.
Com o tempo percebeu que as meias azuis davam azar no jogo, e aí passou a usar somente meias amarelas no dia, se não ganhava, no mínimo empatava. Só que ao mesmo tempo, percebeu que quando usava meias amarelas nas reuniões de quarta, as coisas não iam bem, seu chefe se irritava com ele, então passou a ir de meias brancas para o trabalho e trocava pelas amarelas nos encontros com os amigos, à noite.
Como no carteado rolava um dinheirinho, pra dar graça, notou que se estivesse de cueca vermelha, a noite ficava mais rentável e concluiu que a combinação certa para as quartas-feiras era cueca vermelha, que funcionava bem também no trabalho, meias brancas no escritório e amarelas no baralho com os amigos. Perfeito!
Essas manias já eram conhecidas por todos e, principalmente, claro, pela esposa, Ana, que já estava a ponto de ter um piripaque nervoso com tantas regrinhas, detalhes, simpatias e pédepatomangalôtrêsvez!!!! No início cética como uma porta, Ana começou a prestar mais atenção nos poderes das cores, numerologia, e em especial, nos tipos de gatos que cruzavam o seu caminho numa noite solitária de quarta-feira. Com o tempo percebeu que, ao contrário da crença popular, cruzar com gato preto dava sorte.
E as quartas-feiras para o casal entraram então num padrão divino, elevado em vibrações energéticas. Cueca vermelha, meias brancas no trabalho, amarelas no carteado, gato pardo nas ruas com lingerie de qualquer cor. Arthur se dando bem com os amigos, Ana se dando muito bem com os novos amigos, gatos, gatíssimos negros, bronzeados, sempre para um tom mais escuro.
Até que o inevitável aconteceu, chegou aquele dia, fatídico dia.
Arthur estava trocando as meias, brancas para as amarelas, ainda no escritório, prestes a se encontrar com os amigos, noite de baralhinho. Quando bateu o olho sobre o calendário de mesa e ficou pálido: quarta-feira, 13 de agosto, lua cheia.
Não, não pode ser, hoje não é dia de sair, não numa quarta-feira, 13 de agosto de lua cheia, definitivamente não! – pensou enquanto apagava a luz de sua sala.
Transtornado, Arthur deixou o escritório em direção à sua casa, sentia que algo de ruim acabaria acontecendo se insistisse em desafiar os sinais. Mas não se foge do destino e ele estava perto de comprovar isso.
Abriu a porta do apartamento pensando saudoso na mão da última quarta de carteado, quadra de damas contra trinca de reis do Odair, que delícia!!
Quando entrou no quarto, pegou Ana com um valete nas mãos.
Sua reação foi instintiva, abriu a gaveta da cômoda, pegou a arma e descartou dois tiros em cada um.
Quarta-feira de lua cheia, 13 de agosto, melhor não sair de casa. Ainda cruzar com um gato branco, suíço de tão branquelo, é tragédia na certa!!

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