Quando Ana deu entrada na maternidade, não tinha idéia que sairia de lá com dois embrulhos, ao invés de apenas um: Grace e Kelly. Seus 110 quilos e uma comida de bola do ginecologista esconderam por nove meses que seriam duas princesas os presentes para Ana naquele mês de setembro.
Não precisa dizer que ela era fanática por cinema, e em especial, pela princesa de Mônaco, que faleceu de forma estranha em 1982 num acidente de carro, alguns meses antes, daí a homenagem.
Grace e Kelly cresceram felizes, cada uma a seu modo já que de comum, apenas o dia de nascimento. Enquanto Grace fazia justiça ao nome, era loirinha, graciosa, elegante, delicada, Kelly era um clonezinho da mãe, alegre, extrovertida, meio desleixada e muito, muito comilona.
Grace vivia cercada pelas amigas que a imitavam em tudo, modo de vestir, de arrumar o cabelo, de andar. Muito boa aluna, era uma líder na escola, e não saia da academia, alimentação rigorosa, não se permitia engordar uma grama, nada de açúcar, carne vermelha ou refrigerantes.
Kelly vivia de bem com a vida, adorava jogar bola com os meninos que a colocavam no gol, para diminuir os espaços para uma eventual bola entrar. Comia de tudo, não se privava de nada, nem se importou quando começou passar de fortinha, socadinha, para uma condição mais próxima do visual da sua mãe. Os meninos gostavam dela assim mesmo, em especial um que foi fazer magistério com ela e juntos formaram professores. Se deram tão bem fazendo faculdade juntos que resolveram continuar juntos, fizeram três filhos juntos e viviam muito bem juntos.
Grace, depois de ser Miss Primavera do clube, Rainha da Festa do Peão Boiadeiro, conseguiu um contrato numa agência de modelos o que prejudicou um pouco os seus estudos já que tinha que fazer desfiles, recepção de eventos, fotos e outros trabalhos. Sua paranóia com a forma física, peso, aparência, foi se agravando com o tempo, começou a ficar obcecada em não engordar, já que sabia ter o DNA da mãe e irmã. E isso a fez radicalizar na alimentação, quando se olhava no espelho sentia que ainda não estava magra o suficiente, tinha medo de perder trabalhos, seu agente a lembrava disso todos os dias.
Kelly era professora municipal e trabalhava também como contratada em um colégio estadual. Estava se dedicando nestes últimos dias de férias aos estudos para prestar o concurso para efetivação em meio a centena de milhares de concorrentes. Ela sabia que não iria ser fácil, já tinha tentado antes e não tinha conseguido.

Ana, Kelly, marido e filhos tinham acabado de chegar ao velório, ainda completamente inconformados com a morte tão prematura de Grace. Seu estado anoréxico era de impressionar, chocar mesmo. De nada havia adiantado a decisão de interná-la à força, já era tarde, não houve como alterar o quadro de inanição e desequilíbrio dos componentes sanguíneos.
Ana optou por deixar o caixão fechado, a imagem era muito forte daquela filha, Miss Primavera e Rainha da Festa do Peão Boiadeiro.
O agente de Grace não pôde ir, estava acompanhando o desfile do Fashion Week, mas mandou uma coroa de flores. Graças aos regimes, corte da carne vermelha, refrigerantes, doces, o caixão estava leve, fácil de levar.
Kelly recebeu a notícia de que havia sido reprovada no processo seletivo no momento em que entrava no carro, após o enterro. Não havia passado no teste físico, fora considerada obesa, sendo que muitos dos eliminados já davam aula temporariamente na rede. O Governador do Estado negou que tenha havido discriminação pelo critério de obesidade, não era uma questão de aparência, foi aptidão física, quem se sentisse injustiçado, que entrasse com recurso.
Kelly ainda tentou lembrar por quantas vezes teve que fazer uma corrida em volta da sala, na aula de matemática, sua cadeira. Aí, olhou para o celular, olhou para o portão do cemitério, já estava anoitecendo, olhou novamente para o celular, deu de ombros e o guardou na bolsa.

Anúncios