Minha cabeça ainda dói, ontem foi puxado, misturar graduações alcoólicas de origens diferentes acaba dando nisso, eu já sabia.
A boca ainda está com aquele gostinho de cabo de guarda-chuva, a velocidade do raciocínio ainda se mostra lenta, como se o tranco do levantar a cabeça do travesseiro não fosse o bastante para dar a partida, mas estou acostumado, é o efeito colateral que já se tornou amigo. E amigo é isso, nem sempre agrada, nem sempre desce redondo, mas se guarda do lado esquerdo, na mesma gaveta que já foi dela, que por sinal, estava lá também ontem.
Não ficamos lado a lado, com nossos corpos colados, grudados, apertados um contra o outro, como já fora pelos melhores anos da minha vida. Estava lá, com outro corpo, outro grude, não tão colado, não tão quimicamente compatível, mas estava lá e não cá.
O garçom trouxe uma frigideira fumegante com tiras de carne sapecando em alho e óleo e colocou sobre um fogareiro na ponta da mesa. Ela se serviu com uma fatia de pão, deu uma mordida e depositou a outra metade carinhosamente na boca dele.
Já provei algumas tampas na minha panela, umas ficaram grandes, pequenas, outras eram de um material muito diferente, outras tinham furos e não conservavam o calor. Algumas eram do tamanho exato, mas olhando bem não combinavam com o meu design, até que achei uma que encaixou perfeito, material, tipo, jeito de tapar as frestas do meu ser.
Pensei que tinha acertado na loteria, já achava que não encontraria uma tampa que fosse do meu número e gosto. E depois que você encontra, cria a fantasia que vai ser para todo o sempre, talvez para não voltar à busca, talvez por entender que ela te completa de um jeito que nenhuma outra faria. Bobagem, fantasia mesmo.
São muitas as panelas sem tampas e tampas sem panelas, quanto mais o tempo passa, mais difícil o encaixe, o encontro de materiais da mesma espécie.
Enquanto provo mais um gole da minha caipirinha, olho para ela tampando a panela do meu amigo e chego à conclusão que foi melhor virar frigideira, daquelas menores, de uso rápido, para sapecar um filé mal passado ou tiras de aperitivo, como a que estava na ponta da mesa.
Tem muita panela por aí com a obsessão de achar uma tampa, qualquer uma, e sofre mais do que se estivesse sem. Melhor ser frigideira.
Esse tipo de panela dispensa tampa, até sente falta dependendo do prato, mas dá para tocar, e se for o caso, se vira com uma que está à mão. Claro que não é a mesma coisa, mas com o tempo você acostuma, muitas vezes passa a preferir, o risco da tampa errada não vale o preço.
Olhei para ela e sorri, eu gostava desta tampa, mas ser frigideira é bom também.

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