Hoje acordei de supetão, caminhei por trilhas estranhas durante a noite, confesso ter sentido certo alívio ao abrir os olhos e dar de cara com meu fiel travesseiro. Já tive colos melhores, mais interativos, certamente mais amorosos, mas nada comparado em fidelidade ou disponibilidade de amparar minhas carências.
Desconfio que foi meu travesseiro que me acordou, preocupado com minhas andanças noturnas. As dessa noite estavam ainda pairando na minha mente, tentava imaginar o que o velho Jung encontraria na profundeza dessa caminhada.
Era uma trilha em meio a uma mata, no início tudo tranquilo, o som dos pássaros, o cheiro da terra úmida, preenchia meu ser com paz e um sentimento de liberdade e prazer. O sol já em poente iluminava de forma mágica o cenário, lembrei do sonho de um amigo que, numa situação parecida, pegou o sol, o guardou num bornal e seguiu caminhando pela noite adentro. Eu não tinha bornal. E pouco depois, não tinha nem sol.
Quando a noite me envolveu, tudo mudou, não eram os mesmos pássaros a cantar, mal enxergava o caminho, a paz havia me abandonado. Agora, cada passo era dado com cuidado e certo arrepio corria pela pele a cada galho quebrado. Minha audição ficou mais apurada, comecei a perceber sons ínfimos, a ponto de não saber mais se estava ouvindo ou imaginando. Pensei em não seguir adiante, mas parar não era solução, continuei andando, passo a passo. Foi quando ouvi um som que não tinha sido feito por mim, meu sangue gelou, o coração correu, eu parei. Senti o medo me abraçar, ele estava acompanhando do pavor. Pensei em virar na direção do som, não consegui, ali estava, ali fiquei, ouvidos em alerta, nenhum som, nada, a mata emudeceu.
Não sei quantas vezes já me vi em plena escuridão, com a sensação de não ter como encontrar a saída, sem ação, assistindo o medo plainar como uma capa negra e envolvente. Nessas horas, deixar a mente no comando é cair fundo no vazio, é se entregar sem nem saber para quem ou por quê. Nessas horas, a gente parece esquecer que a noite é apenas parte do processo, que a luz é nossa verdadeira morada e basta uma fresta para que os nossos cantos vazios mais distantes se iluminem.
Dar de cara com o meu travesseiro foi um alívio, mas quero voltar e descobrir quem fez a minha mata emudecer. Não posso esquecer de levar uma lanterna.

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