Toda noite eu e meu Eu sentamos na cama antes de não dormir. É como um ritual de quem já sabe de cor, passo a passo, o que vai rolar. Olho em volta, disfarço, como se ele não estivesse ali, apago a luz, fecho os olhos e aguardo, não tem jeito, meu Eu invade minha mente sem pedir, sem pudor, um seqüestro, relâmpago.
Na solidão da noite ficamos assim, sem nos falar, nos comunicando apenas no pensar.
Na solidão da noite brincamos de gato e rato, quem dormir primeiro é mulher do sapo.
Meu rebanho de carneirinhos nos observa esperando pela convocação, mas já faz um tempo que não os conto, já sei quantos são, até mesmo os nomes, agora que somos íntimos.
No começo achei que estava só, demorei para perceber que não era eu que me mantinha assim, alerta, pensando, pensando, pensando com os meus botões, de um pijama já meio surrado.
Meu Eu é esperto, ativo e egoísta, não quer ficar sozinho enquanto descanso, quer platéia, a mim como platéia, e claro, todos os meus convidados fantasmas. Aquele, do amor que se foi sem nem dizer por quê, um outro que assombra meu próximo movimento, tem os dos negócios, os da família que deixei e outros mais que de tão antigos nem sei quem são, desconfio que tem uns penetras, arroz de festa. Festinha chata, muito papo cerebral que não leva a nada, que me desperta sempre que meus olhos tentam fechar as cortinas.
Mudo de posição, lembro do depósito, dela, mudo de posição. Braço por cima, joelho encolhido, travesseiro dobrado. Book, facebook, Scarface, 51, diazepam, leite morno, rivotril. Mais, mais, ele é curioso, quer experimentar, quer saber o gosto, mesmo amargo, mesmo desgosto.
Até que um dia aconteceu, na verdade foi noite, quase dia. Como ponteiros de um relógio, meu corpo girou pela cama até voltar na posição que já não tinha funcionado. Abri meus olhos e nada mudou, juntei minhas mãos e clamei aos céus, ou ao teto, não tinha a menor idéia até onde conseguiria lançar minhas súplicas. Certamente, pela falta de prática, não chegaria às estrelas, talvez ao andar acima, oxalá eles estivessem por perto.
Comecei pelo pai nosso, que estás no céu (tomara mais perto) e errei a letra, minha mente previu o perigo e misturou com a ave Maria. Tentei por duas vezes, até que resolvi ir no improviso, mesmo com o meu Eu alertando sobre o vencimento da fatura. Minhas mãos se mantinham entrelaçadas, meu olhar no escuro voltado para cima, apesar de não enxergar nada, torcendo para que pelo menos meus anjos estivessem voando baixo. E pedi, com toda a força do meu ser, uma trégua, que eles calassem o meu Eu ou eu não responderia por mim. Claro que foi com muito jeito, com carinho, tipo “meu anjo da guarda meu bom amiguinho, me leve sempre para um bom caminho”, de preferência dormindo. Não me lembro o que aconteceu depois.
Toda noite eu, meu Eu e meus fantasmas vamos juntos para a cama, e quando a festa se estende, eu chamo os amigos que voam baixo. Pode confiar de olhos fechados.

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