O Bráulio adorava uma aposta, qualquer coisa, podia ser no jockey, bicho, carteado, valendo dinheiro, chopinho, vale-refeição ou não valendo nada, só a adrenalina da disputa, já valia. Ele levava a sério a máxima que o importante era competir, e claro, ganhar, segundo lugar nem pensar.
Os amigos se revezavam no enfrentamento porque não havia fôlego que aguentasse, impossível encarar o Bráulio em todas.
Foi quando o pessoal da firma criou o Bolão do Brasileirão, sete meses de campeonato, sete meses de competição. Jogos de quarta, quinta, sábado e domingo, e por ele podia emendar nos outros dias, tudo bem. Pra quem apostava com os amigos de trabalho, todo dia, que elevador chegaria primeiro na entrada, saída para o almoço, volta do almoço e final do expediente, esperar os dias entre as rodadas do campeonato de futebol era uma tortura.
O Bolão virou uma mania, assunto de twiter, cafezinho, facebook, e para o Bráulio uma obsessão. Comprou o pacote da TV a cabo e assistia a todos os jogos, com lap top do lado para monitorar os palpites dos amigos durante os jogos.
E não era só isso, o Bráulio fazia a classificação com boletim de cada semana, enviava por e-mail para cada participante, mais de 30, com direito a comentários, a Crônica da Rodada.
Tudo estava correndo bem, ele em primeiro lugar, com boa margem de pontos para o segundo colocado, já era chamado de The King of Big Ball. Corria bem até aquele domingo, fatídico domingo.
Como sempre fazia, Bráulio deixava para registrar os palpites algumas horas antes dos jogos do dia começar. Podia ter uma novidade, algum jogador machucar, não jogar, ele analisava todos os detalhes. E a encrenca teve início nesse detalhe.
Abriu o lap e o site do Bolão não conectou, achou estranho e foi conferir o roteador do wireless, desligado. Só neste momento, Bráulio se deu conta que não tinha força, o lap estava ligado graças à bateria. Sentiu um arrepio percorrer toda sua coluna, e a tranquilidade de dar início ao ritual dos palpites se transformou em desespero. Olhou em volta buscando uma solução, bateu os olhos no celular sobre a mesa da sala, ficou mais calmo, correu para o celular, daria os palpites no site através dele. Sem bateria.
Mais uma vez experimentou sair da calma para o pavor, sentiu suas orelhas esquentarem, podia apostar que era mandinga do segundo colocado no Bolão, mas não tinha ninguém para propor a aposta. Olhou para o relógio, vinte minutos para terminar o prazo das apostas, sem força, sem celular, a única alternativa era pegar o carro e correr até um cyber café, o mais perto não era tão perto. Pegou as chaves do carro, correu para a porta, parou frente o elevador e apertou, nada. Está sem força, idiota, pensou.
Olhou para as escadas e vacilou. Décimo oitavo andar, ele com 160 kg, achou que não ia dar, mas não palpitar também não dava, encarou.
Além de descer, Bráulio tinha que descer acelerado, quando estava passando pelo décimo andar, faltavam 10 minutos para encerrar as apostas. E ele acelerou o mais que pôde.
Seu corpo foi achado sem vida pelo faxineiro, entre o sétimo e sexto andar, quando já tinha voltado a energia, ainda era dia. Com as costas apoiadas na parede, ocupando dois degraus, o que chamava atenção era o papel dobrado sobre sua coxa.
As letras estavam trêmulas, um pouco inclinadas, fora de esquadro, uma frase curta, mas precisa: “aposto que não chego no quinto, morro antes”.
The King adorava uma apostinha, e acertava mais do que perdia.

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