CampiMatilhaEstá no ar, o confronto vai acontecer, não há como evitar, por mais orações e velas acesas, não tem como escamotear a essência, não há peles de cordeiros que disfarce, e os lobos não são o que se rotula.
Ele os tratava como cachorros, e talvez aí tenha cometido seu primeiro engano, pensando bem, ele já tinha nascido engano.
Sentado num toco, na divisa de sua casa com a do vizinho, ele amarrara um fio de nylon numa frágil árvore que ainda se vergava à sua vontade. Cabelos desgrenhados, barba grisalha, olhar frio que devia vir direto de sua alma, ele trabalhava de forma paciente afiando um grande anzol.
Percebi de imediato que era uma armadilha, vindo dele não podia ser outra coisa, mais ainda depois do dia anterior. Me aproximei e nem precisei me anunciar, sem se virar, sem tirar os olhos de suas mãos, ele se antecipou.
– Nem vem… comigo, fez, paga. – disse ele com a mesma frieza dos olhos, da alma, na voz.
– Os cachorros fizeram alguma coisa? Eles têm alguma coisa a ver com o seu ódio pelo vizinho?
Sem levantar a cabeça, ele continuou afiando o anzol, sem dizer nada.
A matilha estava inquieta, sentidos em alerta, farejavam o momento. Andavam de um lado para o outro em absoluto silêncio, orelhas em pé, focinhos escaneando o ar, olhos buscando enxergar além. Eles podiam ser vistos como cachorros, serem tratados como cachorros, mas a essência era maior, talvez lobos em pele de cachorros.
Está no ar, o confronto vai acontecer, não há como evitar.
As essências estão aflorando, as máscaras caindo, as peles de cordeiro se desfazendo, basta ter olhos para ver. E os lados? Não tem mais como parecer estar do lado que interessa naquele momento. E os muros? Não tem mais como subir e se colocar à distância, na espreita, sem escolher um dos lados.
Chegou o momento de ser, não mais de parecer. E as armadilhas? Quando o véu cai, tudo fica à mostra, a verdade é. O resto não é mais.
Ele terminou o trabalho e estava tão entretido com o próprio umbigo, que a volta à verdade à sua volta foi rápida demais. Não tinha se dado conta que a matilha já o tinha cercado, apenas cercado. Sua reação foi desastrosa, o que fez a frágil árvore não mais se curvar contra sua vontade, só o grande anzol se manteve firme à função e o fisgou em plena garganta. Por instinto, ele movimentou o corpo no sentido contrário, o fio de nylon enroscou e prendeu, o perfeito trabalho de afiação se mostrou eficiente. Sua cabeça se depreendeu do tronco. Muito rápido, simples assim.
A matilha trocou olhares em silêncio e voltou para casa.
Chegou a hora de voltar para casa.

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