ENQUANTO A BOLA ROLA

E a Copa completou sua primeira rodada de jogos, já com heróis e vilões, dentro e fora dos estádios. Completou comemorando os 60 anos do primeiro gol de sua maior majestade, o Rei Pelé, em Copa do Mundo. Foi contra o País de Gales.
Este tipo de evento esportivo, que por um breve período une seres de todo planeta, de culturas, fisionomias, comportamentos distintos, todos juntos e misturados, emociona ao mesmo tempo que expõe contrastes tristes.
O caso dos brasileiros que “brincaram” com a garota russa é um desses deslizes de comportamento lamentáveis que só retratam a nossa falta de decoro cultural, social, humano. Fazer com que alguém, que não fala a sua língua, repita palavras chulas, impróprias, sexualmente apelativas, sem que ela saiba o significado é mais do que ofensa ou transgressão às leis da Federação Russa. É desrespeito com um ser humano. Que só expõe a nossa falta de noção do que é “piadinha de brasileiro” e o que é postura digna.
Se na abertura da Copa teve o Robbie Williams enfiando o dedinho nos olhos de bilhões de telespectadores, com a bola rolando o México derrotava a Alemanha, e o Trump, com sua “tolerância zero” aos imigrantes ilegais na fronteira, dava o troco separando crianças de seus pais mexicanos que tentam entrar ilegalmente no país.
Sem dúvida vivemos uma crise humanitária e moral. E estética, com o Neymar com o seu topete de calopsita, que virou meme e monopolizou canais de TV, sites de notícia e redes sociais em todo mundo.
Enquanto isso, o Cristiano Ronaldo comprovava sua condição de salvador da pátria, e o Messi de decepção da pátria ao perder o pênalti contra a Islândia.
A bola rolava nos gramados e os foguetes da organização terrorista Hamas sobre os civis israelenses durante a noite, motivando o contra-ataque de Israel a 25 alvos na Faixa de Gaza.
Guerra no campo, guerra nos ares.
Guerra pela audiência.
A Globo aproveita a audiência da Copa e tenta salvar a audiência das novelas, que rola pela ladeira, fazendo seus narradores e comentaristas abordarem o que vai acontecer no capítulo do dia. Já é de praxe durante o campeonato brasileiro, mas na Copa estão abusando, está ficando patético.
No fim, enquanto a bola rola, o rolo compressor da política, da sobrevivência, das carências, não para de rolar, apesar dos esforços em escamotear as manobras. Por isso, um olho na bola e o outro nos donos da bola, que não param de aprontar.
A verdade é que já vivemos tempos onde parecia haver espaço para esquecermos a luta do dia a dia e nos concentrarmos nas lutas dos nossos heróis de chuteiras. Mesmo que esta paixão nacional, que já foi maior, estivesse sendo usada pelos interesses canalhas da política. Esta é uma droga contaminada historicamente.
A verdade é que não se percebe um interesse no mesmo nível do que já foi despertado por este evento mundial, que se repete de quatro em quatro anos.
O que conforta a todos é que o Superior Tribunal de Justiça garantiu o direito de ex-companheiro visitar o animal de estimação, mesmo após o rompimento de união estável entre seus donos.
Enquanto a bola rola, a paciência rola cada vez menos.

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CAVANDO

A ressaca ainda se faz presente.
Não, não foi de uma noite de balada curtida no álcool estocado no copo por pouco tempo.
A ressaca é da falta do álcool na bomba e todos os desdobramentos deste evento avaliado como a mais contundente greve jamais vista neste país.
Pra variar, a rede social ferveu de versões e visões partidárias neste FlaxFlu eterno, repleto de perdedores, pretensos ganhadores e donos da verdade impoluta, que buscam se mostrar vivos e em forma apesar dos tropeços nos campos desta vida madrasta. Os profissionais que se tornam amadores mal amados pelo destino e sacrificados pelos nefastos políticos dos times adversários. Tudo é culpa do outro, segundo seu próprio umbigo.
O que mais impressiona é a capacidade de produzir bobagens, asneiras, que se tornam patéticas na busca de justificar o injustificável. E assim, conseguem verbalizar que o antes era melhor do que o agora, pós “golpi”, sem ao menos terem a capacidade de raciocínio de traçar contas para concluírem que o agora está ruim porque o antes era um horror. Um simples cálculo de causa e efeito.
Mas não, o foco é apontar o dedo. Mesmo que seja podre, de unhas longas e curvas, que na verdade apontam para si mesmo.
Com isso, um movimento legítimo e necessário, que nasceu de um grupo que defendia os seus interesses primordiais, evidentemente, e que poderia agregar interesses comuns de toda sociedade, acabou contaminado pela nossa essência partidária. A ponto de, no meio do embate, não conseguirmos saber se era para ser contra ou a favor, ou muito pelo contrário.
Isso fez com que direita e esquerda se unissem, e quem sofreu, pra variar, foi o corpo.
A oportunidade de mostrar maturidade comunitária, virou um salve-se quem puder, e quem tiver mais galões para estocar combustível.
Fica fácil chegar à conclusão que o maior problema do Brasil são os brasileiros.
Se para o país para protestar contra os preços/impostos abusivos, que são as armas de um governo comprovadamente corrupto de colocar no caixa, de volta, parte do que surripiaram com os verdadeiros golpes nas contas públicas. Ao mesmo tempo, se corre para estocar os produtos que passam a estar em falta, a preços maiores do que no momento que motivou o protesto.
Enquanto isso, o salário base de um professor é de R$ 2.200,00 ; de um policial R$ 3.600,00 e de um deputado federal, eleito pelo povo para servi-lo e não assalta-lo, é de R$ 26.700,00 sem contar as verbas e auxílios diversos e absurdos.
Enquanto isso, o Paulo Souza, ex-diretor do Dersa, suspeito de participar do desvio de dinheiro de obras públicas, movimentar cerca de R$ 113 milhões em contas na Suíça, é novamente solto pelo escroto juiz Gilmar Mendes que considera que não há razão para prisão preventiva porque as suspeitas são antigas.
Enquanto isso, a cabo militar que defendeu o filho e os filhos das mães no dia delas, matando o assaltante e que virou celebridade e heroína, se filiou ao PR para ser candidata à deputada federal nas próximas eleições. Heroína de uns, contraventora dos direitos humanos para alguns patéticos do contra, e decepção para outros ao ceder, ao se converter em fantoche da política.
Enquanto isso, o governo, indignado pela ousadia, multa a fila de caminhoneiros ainda parados nas estradas. A mídia cobre, analisa, as redes sociais palpitam, vomitam seus ódios. Mas ninguém abre a boca quando esses mesmos profissionais param por horas, dias, vítimas de estradas não pavimentadas, sem a menor condição estrutural de tráfego, transportando esses mesmos produtos essenciais, que ninguém nem pensa como chegaram nos pontos de vendas.
Enquanto isso, nós, os bobos da corte, continuamos nos digladiando nos espaços nobres da web, destilando ironias, pedindo intervenção militar, evocando os bons tempos do seu bandido de estimação no poder, sendo contra aquilo que já foi a favor quando era do seu time.
Continuamos expondo nossa miséria de alma, de intelecto, de sentimento comunitário.
Continuamos exercendo, com galhardia, o papel de marionetes no palco virtual e real, dançando conforme a música orquestrada pelos déspotas que colocamos no poder, donos dos fios.
Continuamos cavando o poço.
Que vidinha besta!

O SABER DO TEMPO

Segundona brava, transito comendo solto logo cedo, carros indo e vindo com a ansiedade dos seus condutores movendo as rodas, buzinas legendando em som a falta de paciência, a vontade de chegar logo, fosse onde fosse.
Jony assistia a tudo enquanto caminhava acelerado em direção ao parque que ficava a algumas quadras da sua quitinete. Sua vontade era estar parado naquele transito, mas o mercado freou seus desejos e o empurrou para caminhar, melhor do que ficar ruminando ranço em trinta metros quadrados.
Seus pensamentos estavam na história que ouvira na noite anterior de um menino de doze anos que havia se suicidado em razão de bulliyng sofrido na escola. Sua mente voltava no tempo tentando localizar essa mesma situação quando nessa mesma idade quem sofria bulliyng era ele. E a alternativa, de tirar a própria vida, jamais havia passado pela sua cabeça.
– Seriam outros tempos, outra realidade? Eu nem sabia que tinha esse nome, bulliyng. A gente se irritava, as vezes apelava, mas o jogo seguia. Eu era gordo mesmo, não tinha como negar, mas me chamar de “bolota” enchia o saco!!
Já dentro do parque, Jony seguia a trilha ladeada por grandes árvores que sempre pegava. Ao final dela, seu banco o esperava. Hoje havia um senhor sentado na ponta do fundo. Jony pensou em não parar, mas precisava pensar. Pensar no que fazer para não chegar ao extremo que chegou o garoto.
Lembrou do professor fazendo uma explanação sobre a vida, quando estavam perto de se formar no colegial. Da projeção que ele fazia, que terminava uma etapa, mas que a seguinte vinha com novos desafios, entrar na faculdade, focar na atividade profissional que iria comandar a sua vida dali para frente. E depois o desafio de formar uma família, ter filhos, sustentar e formar esses filhos. A vida era uma grande trilha, com seus prazos para vencer cada etapa. Eram mais 15 anos. Quinze anos para definir a carreira, ter um emprego estável, casar e criar esse mesmo ciclo, que seus pais criaram, para os seus rebentos. O tempo passou e ele furou todos os prazos. E aquela criança nem chance vai ter de tentar cumprir este ciclo.
Sem nem se dar conta, já estava sentado, até esqueceu do senhor sentado na outra ponta. Sua mão esfregava a testa, seus olhos abriam e fechavam, sua aflição era patente, escancarada. O que chamou a atenção do senhor de bermudas, boné da Nike e óculos escuros. Ele olhou para o Jony por cima dos óculos para tentar entender melhor. E ficou assim, intrigado. Até que não aguentou mais.
– Está tudo bem?
A pergunta fez Jony sair do transe.
– Como? Ah… Oi. Tudo bem sim… mais ou menos…
A forma tranquila e leve do senhor abriu o colo para Jony relaxar e conversar. Era talvez o que ele mais precisava, conversar. E os dois começaram a conversar.
– … doze anos… pulou da janela?
– Pulou da janela.
– Meu Deus! Mas você não está pensando em pular da janela…
– Não, não, rsss… não é o caso. Ainda. Mas eu sinto que o meu prazo está se esgotando. Aquilo que eu disse do professor em sala de aula, não cumpri quase nada no tempo certo. Não sei o que faço, o que vai ser…
O senhor deu um suspiro, apertou os lábios enquanto concordava com a cabeça. Seu braço direito estava sobre o encosto do banco e a mão esquerda alisava o queixo e a boca lentamente.
– Então… interessante essa linha do tempo criada pelo seu professor. Estabelecer um padrão dessa importância para a vida de adolescentes é, no mínimo, irresponsável. Eu diria até cruel.
Como você pode perceber, pelas minhas rugas, em já vivi um tanto bom, mais do dobro de você. E já vi de tudo nesta vida, de tudo mesmo.
Tive amigos de escola que eram os primeiros da classe, alguns entraram de cara na faculdade, logo estavam empregados e viraram empresários super bem-sucedidos. Outros foram muito mal, bombaram de ano, alguns nem faculdade fizeram, e viraram empresários, diretores de empresa, muito bem-sucedidos. E alguns que tiravam as melhores notas, nem conseguiram boa colocação no mercado, teve um que se matou. Vários demoraram muito tempo para encontrar um caminho, muitos se encontraram em uma atividade completamente diferente daquela que trilharam no início. Teve quem se casou e foi muito feliz. Teve quem se casou e se separou. Tem um que continua casado e ama uma amiga nossa desde os tempos de faculdade.
Cada um tem o seu relógio ajustado, o seu tempo para as coisas acontecerem. E o conflito maior hoje em dia é exatamente conciliar essa ansiedade, essa necessidade de rapidez na concretização dos desejos, com a prerrogativa que só o tempo tem de permitir que as coisas aconteçam. Ele dá o prazo, não o seu professor.
Eu mesmo já me senti atrasado nas realizações que eu planejava e, neste mesmo momento, tinha amigos que me viam muito na frente deles.
Tenho um amigo de escola que passou em primeiro lugar em arquitetura na FAU e trabalhou muito pouco na área. Foi se encontrar na publicidade porque depois de dez anos reencontrou um amigo nosso do colegial, que virou publicitário e deu uma chance para ele. Hoje ele tem a sua própria empresa na publicidade.
“Nem tudo que conta pode ser contado, e nem tudo que pode ser contado conta.”
Dizem que esta frase é do Einstein, mas não é não, é de um sociólogo. Veja o Einstein, ele não falou até os 4 anos e aprendeu a ler aos 7 anos. E ganhou o prêmio Nobel de Física.
O Thomas Edison foi considerado “muito burro para aprender qualquer coisa”, segundo um professor dele do primário. E inventou a lâmpada. Depois de 1.001 tentativas!! Se ele tivesse desistido na décima ou mesmo na milésima, será que a gente estaria à luz de vela hoje?
Walt Disney foi demitido do jornal Kansas City Star, em 1919, porque segundo o seu editor “faltava imaginação e ele não tinha boas ideias”. Em 1932 ele ganhou o primeiro dos vinte e dois Oscars dados pela Academia de Hollywood.
Aquele alguma coisa Kroc, que fundou a rede McDonald’s trabalhava, até os 52 anos, como vendedor de copos de papel e misturadores de milk-shakes.
O Soichiro Honda, não conseguiu emprego na Toyota e começou a fazer scooters na sua própria garagem, sei lá com quantos anos, mas não era novo, não.
E eu posso ficar aqui até amanhã lembrando de pessoas que se deram bem depois dos 40, 50, 60, muitos nem faculdade tinham.
É verdade que muita gente passa a vida fazendo algo que nem gosta, mas que precisa fazer para sobreviver. Talvez, optar pela felicidade possa trazer problemas em um primeiro momento ou até pelo resto do tempo. Mas se não tentar, a gente nunca vai saber, e isto pode custar o “ser mais feliz”. Que é o que importa. E não existe tempo para isso. Se reinventar aos 60 dá trabalho, exige vontade, sonhar e correr atrás. Eu costumo chamar isso de viver. E não apenas respirar.
Jony olhava para o senhor, que ele nem sabia como chamava, com a admiração que dedicamos aos “gurus”. Como o destino o colocou bem no seu banco, onde ele nunca o tinha visto?
– Acho que falei demais, meu jovem. Você estava aqui pensando na vida e eu me intrometi nos seus pensamentos. Agora vou embora, preciso chegar logo em casa porque este nosso papo me deu uma ideia nova de consultoria, hehehe…
– Olha, meu senhor, com certeza foram os meus anjos que colocaram o senhor aqui neste banco hoje. Não sei como agradecer este nosso papo.
– Tem nada que agradecer, foi um prazer.
Ahhhh, lembrei de mais um. Sabe o que fazia o Harrison Ford até os 30 anos, antes de virar o Indiana Jones, o Han Solo de Star Wars??? Era carpinteiro!!!!

O FIM DOS MITOS

Para nós ocidentais, o culto aos mitos teve forte influência da civilização, filosofia, pensamento grego e suas histórias sagradas. Mas em todos os povos se cultiva há milênios a força sobrenatural ou divina de diversos personagens e seus feitos, que acabam por se transformar em fábulas alimentadas por governantes e sacerdotes, passadas de geração em geração.
Com o tempo, a termo foi incorporado para o nosso dia-a-dia, na exaltação a pessoas que se destacavam dos simples mortais, na mistura de fatos reais com imaginários, história e fantasia, se transformando em verdadeiras lendas, ou folclore.
O rei do futebol, um Mito. O rei do crime em Chicago, nos anos 20, outro mito. O salvador da Pátria, na política, mais um.
Alphonse Gabriel Capone, controlou um império de atividades ilegais em Chicago, USA, na década de 1920. Seus negócios, em plena “Lei Seca” giravam no comércio de álcool, jogos e prostituição. Um mafioso, nascido em NY, de origem napolitana, inteligente, esperto e cruel, que colocava seus asseclas para praticar assassinatos, além das atividades ilegais, sem deixar rastro. Era idolatrado, poderoso, um Deus para os seus comparsas, inatingível pela lei vigente. Acabou pego pelo fisco por sonegar imposto, em 1931. Os advogados tentaram de tudo, liminar, suborno de juízes, jurados, mas Al Capone não conseguiu escapar, o vendedor de antiguidades, que faturava três milhões de dólares por ano, foi encarcerado por não pagar 200 mil dólares ao fisco. O mito caiu.
Luiz Inácio era um metalúrgico que sofreu um trágico acidente e perdeu um dedo. Conseguiu se aposentar e não mais trabalhou. Foi escolhido para ser a criatura criada pelo José para ser o operário líder da nação, o povo no poder. E o poder impregnou de tal forma o Luiz que ele ficou maior que o criador, que queria apenas um fantoche para transformar o país em uma Cuba.
Luiz se desviou completamente dos objetivos inicias de auxílio aos oprimidos, se embriagou nas facilidades que o poder oferece, entre outros porres, criou com os seus asseclas, enquanto mandatário mor, o maior sistema de corrupção já implantado na história deste país. Que cruzou fronteiras, virou internacional, se expandindo para países com governantes da mesma índole como Venezuela, República Dominicana, Panamá, Angola, Argentina, Equador, Peru, Guatemala, Colômbia, México, Moçambique.
O esquema de operação era simples e eficiente. O Estado contrata obras e serviços, que são super faturados, e os dividendos distribuído entre a cúpula. Um formato aplicado aqui no Brasil e nos países irmãos de golpe. A Odebrechet como a empresa que costurava os interesses da quadrilha e distribuía os dividendos no mercado livre externo. Os irmãos proprietários entregaram o esquema e a cabeça do Mito operário. Que foi indiciado, julgado em quatro instâncias com votos de 15 juízes, vários que ele próprio colocou no cargo, condenado e agora com mandato de prisão decretado. Tudo feito absolutamente dentro do que rege a lei do país, sem golpe, subterfúgios, nada, apenas a lei.
É verdade, estamos apenas no primeiro processo do qual o meliante é acusado, o tríplex do Guarujá, o mais simples, o equivalente à sonegação ao fisco do Alphonse. Muitos capítulos ainda estão por vir, tem o sítio, o Zelotes, terreno do instituto que leva o seu apelido, entre alguns outros.
Com a prisão decretada e o convite para se entregar expedido, o que se esperaria de um ex-presidente? Cumprir com a lei.
Não. Não para um militante da cachaça. Não para um Mito que tem compromissos com os seus adoradores. Não para um ser doente mentalmente.
Como regra primeira da sua congregação, tentaram fazer do limão uma caipirinha de morango. Usar um fato para um outro uso que nada tem a ver com o fato. Fazer do cumprimento de um mandato judicial um evento com conotações puramente políticas.
Melhor, transformar um político preso em um preso político.
Esta estratégia petista de se vitimizar e alimentar o conflito de classes, de transformar um processo legal de corrupção e roubo em perseguição política, é histórica e faz parte da militância de guerrilha. Não se entregar é fomentar a reação dos partidários desta seita para o confronto à espera da reação natural da polícia no cumprimento da ordem de prisão. Para assim, termos de volta os tempos da ditadura militar. Estratégia manjada e pífia.
Para isso, esse covarde de nove dedos (isso não é bulling), se refugiou em um bunker, criou uma barricada de seres crentes e cegos, dispostos a dar a vida pelo seu Mito de folclore, à espera do confronto que traria o veneno da velha tirania.
O bandido condenado, com ordem de prisão expedida se transformaria na vítima de um sistema opressor liderado por fascistas. O mártir da resistência ignóbil, sacana, desprovida de vergonha e ética.
Tudo pensado, orquestrado estrategicamente para criar tumulto. Que não aconteceu. Com isso, esses meliantes ficaram sem plano B. Nem discursar ele pode fazer para suas ovelhas. Dizer o que? Que eles iriam resistir a qualquer preço? E no dia seguinte, hoje, ele se entregava? Um mito não paga esse mico.
E graças a inteligência e equilíbrio dos responsáveis pelo mandato e do aparato policial, a sexta-feira 05 não se transformou em uma sexta-feira 13, manchada de sangue, apesar de já estar encharcada de vergonha.
Um cidadão que já foi chefe de estado, um Mito, julgado, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, querendo se mostrar um perseguido político.
Uma estratégia que apenas se volta contra ele mesmo e joga por terra um partido político que nasceu com a missão de fazer diferente, mas que se converteu à ganância e acabou virando uma seita, com seus líderes canalhas e cruéis, pastorando ovelhas inocentes e crentes.
O Mito está em prisão domiciliar no Sindicato que ele já presidiu.
Deve sair de lá para ser encarcerado e sonhar em continuar servindo de munição das suas ovelhas contra esse Estado opressor. Afinal, tiveram o cuidado de registrar em vídeos, fotos, toda a encenação de resistência com carro de som, churrasco e chope, que certamente será usado em campanha eleitoreira. Natural para um comando dessa estirpe.
Ganharam tempo ao invés de se apresentar às 17h da sexta-feira para dramatizar uma mentira. Deram um tiro no pé porque incitaram ainda mais a polarização que transborda nas redes sociais.
Mitos surgem, sobem, ficam, despencam, passam. Esse Mito morreu. Poderia imitar Getúlio e entrar para a história, pelo menos.

O “PUDER”

Poder. Uma palavra que, em sua essência, é das mais fundamentais para dar sentido a nossa vida. O poder de empreender, amar, criar, decidir, optar, fazer acontecer. Mas aí, alguém poderoso, possivelmente corrupto, e que gostaria de ter essa prerrogativa só para si, criou a frase “O poder corrompe”. Assim, praticar o poder virou algo negativo, maligno. Uma mentira que virou verdade.
Nietzsche, com toda sua sabedoria, já desvendava há séculos esse golpe matreiro de que para algo parecer verdade basta ser imposto e repetido. Os catedráticos em enganação seguem essa cartilha à risca.
Políticos, pregadores e demais líderes impostos são especialistas nesta prática de repetir de forma incansável suas verdades mentirosas para que elas se tornem verdades em meio à boiada, que apenas segue os canalhas, de venda na mente.
Ahhh, o “Puder”! Quantos não vivem obcecados por praticar esse poder que corrompe. E na primeira oportunidade que se abre, eles entram de corpo e alma em busca desse reconhecimento, autoridade, controle, que muitas vezes é para compensar toda frustação de uma vida morna, xoxa, sem brilho. Pura carência. Carência de ética, carência de intelecto, carência social.
O mais incrível é como essa carência aflora nas situações mais banais.
Um grupo de pessoas confinadas numa casa monitorada por câmeras que transmitem em uma rede de TV. E as cobaias carentes de exposição dos seus “talentos” e visando compensações financeiras, se mostram nus de vergonha e postura. Vale tudo pelo pote dourado.
Um grupo de pessoas que saem à rua para jogar um joguinho tolo, de caça aos monstrinhos Pokémon. E toda essência micha, pobre se mostra. A disputa pela liderança se sobrepõe à solidariedade pedida pelo jogo. A tendência em formar grupinhos ideológicos escorados nas cores amarelo, azul ou vermelho do jogo, cria um antagonismo voraz, que só aponta o dedo, com críticas chulas, baixas, de vocabulário recheado de palavrões desnecessários, mas próprios deles.
“Aquela vaca fica dando fruta para não deixar o ginásio cair”. Mas se o amigo de time faz o mesmo, faz parte do jogo, resistiu bravamente.
“Como pode ser tão idiota de gastar fruta Golden que poderia ser usada em Raid. Eu gastei minhas poções para aliviar a bag”. Sem raciocinar e perceber que ela também está aliviando a bag entupida de frutas Golden.
Coisas do jogo, que muitos não vão entender, mas que mostram para qualquer um como o ser humano pratica dois pesos e duas medidas. Como é capaz de poupar o seu político bandido de estimação e atacar o do “time” adversário que fez as mesmas falcatruas, às vezes até menos graves.
No fundo, são frustações com a própria vida, carência de se sentir mais importante, de ter uma função na profissão de maior reconhecimento, visibilidade, liderança. Ficar atrás do balcão apenas servindo, engolindo o “Puder” do chefe no trabalho, bancando apenas o “leva e traz” no grupo cansa e não faz justiça ao seu “talento”.
E toda essa angústia, desgosto, insatisfação vê num simples debate político ou num joguinho de entretenimento, a oportunidade de subir ao palco e disseminar, vulgarizar impropriedades, asneiras, mentiras. Aquelas mesmas mentiras que repetidas e compartilhadas à exaustão no grupinho de “zap zap” tendem a virar verdades. No mínimo entre as vaquinhas de presépio que todo grupinho tem.
Ahhh, o “Puder”. Se ele corrompe, tem gente que “Gozzta mucho”.

O LEGADO

O Coronel estava deitado em sua cama, apenas a luz do abajur iluminava o amplo quarto, com móveis coloniais. Seu bisneto segurava sua mão, sentado sobre a beira da cama. Apesar dos cem anos completados na primeira semana de janeiro, sua mente se matinha lúcida, apenas a voz claudicante em alguns momentos.
Pires, o bisneto, segurava a mão do Coronel enquanto algumas lágrimas caiam vez ou outra do seu rosto, em meio à preocupação com o estado dele.
– Vô, está bem vô?
Hehe… estou bem preparado para partir, rss… Velho e carcomido, pela idade e pela consciência…
– Pela consciência por que, vô?
Pela consciência, filho. A única que não conseguimos enganar, mentir… ela nos cutuca… sabe a verdade. Seu biso viveu muito, viu muito… Usou muito do título herdado do meu pai, Coronel. Nunca fui militar. Nem ele…
Um curto ataque de tosse interrompeu sua fala. O que fez Pires apertar a mão do bisavô, assustado.
– Calma vô, não fala… descansa…
Vou ter muito tempo para descansar… preciso falar…
– Seu pai já era fazendeiro, né? Por isso Coronel…
Latifundiário, como se dizia na época. Boa pessoa, mas autoritário, ganancioso, controlador. Era meu exemplo… Mas eu queria ser, fazer diferente, e acho que não consegui. O poder corrompe, meu filho, nunca esqueça disso, quem está dizendo não é um velho ditado, é o próprio velho deitado, hehehe…
Novo ataque de tosse. Novamente Pires apertou a mão do bisavô entre as suas, preocupado.
Tá tudo bem… tudo bem… Como eu dizia, essa ganância de poder é que degrada tudo, que leva o país a este estado deplorável de corrupção. E eu fiz parte desse sistema perverso, maligno. Alimentei essa máquina geradora de desigualdade social, comprei votos, impus minha vontade, como o meu pai fazia, mandava prender, mandava soltar. Tinha a polícia no meu bolso, os políticos. Elegi prefeito, senador, governador, presidente… Minha consciência me cutuca…
– Calma, vô. Você fez o seu papel, o que tinha que fazer na época. Nada se compara ao que acontece hoje.
Imagina, você não sabe o que acontecia antes. Somos todos farinhas do mesmo saco. Todos usurpadores de um povo pobre e ignorante, que trabalha, trabalha, trabalha e não sai do lugar. E que cede, se converte à regra do jogo, muitos… muitos… e entram de gaiatos na dança que a gente impõe, no ritmo que a gente determina. E quando falo a gente, não sou só eu, mas aqueles que acabam por entrar na jogada corrupta e que ajudam a perpetuar esse jogo de azar, pra vocês, não pra quem joga. Está todo mundo na jogada, o funcionalismo público privilegiado, aqueles apadrinhados, com estabilidade e salários acima aos praticados no mercado, e imunes à equação custo/eficiência. Os aposentados do setor público, que trabalham menos e recebem rendimento muito acima dos demais mortais onerando ainda mais a máquina pública, a ponto de torna-la inadimplente. Os empresários, que não investem, que se associam ao esquema, aos políticos, verdadeiras gangues, que só visam o benefício próprio e que discursam se dizendo paladinos da sociedade…
Novo ataque de tosse. Novo aperto de mão aflito do bisneto. O que não impediu o Coronel de continuar desabafando.
Nosso povo é inocente, ingênuo, mas propício a ceder às tentações, como forma de cortar caminho. Mais ainda nesta velocidade dos dias de hoje, e com a mesma índole de dar um jeitinho para conseguir o que quer. Não é de hoje que a gente tem crises, movimentos de combate aos culpados, que se esvaziam pelo caminho.
Já tivemos cinco golpes de estado. E os safados da vez queriam que a gente acreditasse que este governo corrupto que caiu agora estivesse sendo vítima do sexto golpe. E o presidente que subiu ao poder, trazido pela turma que acabou condenada, veio se juntar aos outros trinta presidentes não eleitos pelo voto.

– Cacete, vô, que memória!!!
Pois é, este é o problema. Eu queria estar com Alzheimer. Mas minha consciência me cutuca. Corrupção sempre existiu. Certamente não com tanta voracidade como agora. Antigamente, a gente não tinha tanta coisa para desejar ter. Hoje é muito desejo de poder, riqueza, bens. Antes a gente queria só mandar, roubava só um pouquinho. O que a gente queria mais era respeito, poder, controle.
Essa bagunça toda já acontece desde que o primeiro português pisou aqui e corrompeu os índios com bugigangas. O que mudou foi apenas o valor dos “espelhinhos”.

A voz do Coronel demonstrava cansaço, a energia empregada no que ele dizia aumentava a cada palavra, mas aos poucos, o ar parecia faltar. Não importava, ele parecia determinado em terminar seu desabafo.
No fundo, a fonte de todo esse jogo está nos recursos públicos, que em vários Estados está se exaurindo, zerando, o que reflete na sede do governo. Que aumenta a sua dívida pública, que acaba por tentar cobrir os buracos com empréstimos a juros escorchantes, alimentando os urubus do cartório bancário que vivem, de forma legal, mas ilegítima, desta corrente predatória. Com isso o estado não supri as necessidades minimamente básicas da saúde, educação e outros setores. O povo acaba pagando a conta duas vezes, por não ter esses serviços e por ver os impostos aumentarem para cobrirem os rombos, os assaltos, os desvios de recursos.
O raciocínio se mantinha perfeito, a voz falhava e Pires apertava a mão do bisavô sem coragem de fazê-lo parar. Nervoso, ele tenta participar.
– E tem solução?
Não sei. Certamente eu não vou ver. A predação é sistêmica, as estatais são fontes dos recursos que alimentam a corrupção. De tempos em tempos eles criam os “bodes expiatórios” os culpados aos olhos da opinião pública, secularmente é assim, mas não desmontam o sistema. Já tivemos vários “bodes”, eles surgem como salvadores da Pátria, se rendem ao sistema e são condenados depois como exemplo de ação da justiça que ainda sobrevive. Puro marketing, pura maquiagem. O serial killer continua solto, acho que não vai ser pego. Ele se camufla e se incorpora a quem sobe ao poder, que se torna “bode” mais na frente. Fechar a torneira seria restringir o acesso ao pote de ouro, terminar com as estatais, e acreditar numa nova geração que, sabedora de todo esse sistema, se comprometa, verdadeiramente, em agir diferente.
Isto está aqui, na sua mão.

Agora era o bisavô que apertava a mão do bisneto. Um aperto débil, acompanhando sua última frase. O Coronel se calou. Pires olhou para ele, apertou sua mão que não mais respondia. O legado havia sido dado.

O SOL E A PENEIRA

O sol ilumina, alimenta, seca. A peneira coa, separa, seleciona.
Ontem demos uma peneirada, condenamos o joio, certamente o maior embuste que este país, famoso por produzir pulhas, já criou. Mas não resolve nada, não salva a pátria, se não for verdadeiro, se for apenas circo.
Um passo. Que se não estimulado, não faz percorrer o caminho.
E para nós, descrentes na vocação de realizar justiça nesta terra, os próximos capítulos desta novela sem fim, não vão dar em nada.
Até porque, a justiça de uns é a injustiça para outros. Depende do time que você torce, depende se o acusado é o seu bandido de estimação, que passa a ser vítima.
Não importa se ele, seus comparsas, saquearam cofres públicos, estatais, a ladainha transforma em golpe político.
Lavou dinheiro, recebeu propinas, propriedades para usufruto, sem documentação de posse? A ladainha procura os outros que cometeram o mesmo crime e não estão sendo condenados. Como se o crime perdesse a validade porque existem outros criminosos soltos.
Haja cela para abrigar tamanha quadrilha.
Uma enorme, monstruosa quadrilha, legitimada pelo voto democrático.
E aí, a conclusão difícil de engolir, é que somos nós que colocamos bandidos no poder. Somente um povo corrupto tem um governo corrupto. Claro, existem cidadãos de bem, que trabalham, não se corrompem, mas que elegem corruptos. Que vendem seu voto em troca de um botijão de gás, que oferecem um acordo em dinheiro para não receber a multa de trânsito, que para em lugar proibido, em vagas restritas, porque “é rapidinho”.
Este povo sofrido, esbulhado, massacrado com impostos vis, assaltado, traído por falsos líderes, é quem legitima estes governos corruptos. É quem dá poder a esses canalhas de carteirinha. Que discursam em nosso nome, que favorecem comercialmente ditaduras com o nosso dinheiro, como Cuba, Venezuela, Angola. Como fez este réu, duas caras, que foi condenado ontem. E que ainda consegue colocar meia dúzia de gatos pingados e mal informados na rua em sua defesa.
Porque condenar alguém que lidera um partido que recebeu, por caixa 2, de empreiteiras as verbas para campanha política? “Todo mundo faz. Por que não prende os outros?”
Por que condenar um criminoso que fez o BNDES emprestar bilhões de dólares para Odebrecht fazer obras sem concorrência em países de sua ideologia? Justo ele que tirou tanta gente da pobreza? Não importa se já voltaram todos e mais alguns para a pobreza. “É golpe!”
Enquanto a direção do circo promove um show de “justiça”, os fundos de pensão das Estatais continuam sendo saqueados, a carga tributária continua aumentando, para cobrir o rombo que esta gangue, suprapartidária, provocou.
E lá vai a peneira se postar na frente do sol tentando bloqueá-lo.
Tá difícil.

EXCESSO DE VELOCIDADE

O policial estava com o radar montado, monitorando a velocidade.
Olhar atento, vez ou outra um incauto excedia o limite. O alarme ecoava, ele se concentrava no transgressor, a foto era tirada, penalidade registrada.
Ele agora testava um novo tipo de radar, parecia uma luneta com manopla para a mão. Media a velocidade em uma distância maior, e de forma mais precisa. Era a primeira vez que usava.
O outro sobre o tripé continuava operando. Este de mão era um brinquedinho novo, que ele apontava a esmo, buscando alvos distantes.
Foi quando focalizou, lá longe, alguém absolutamente alucinado, fora dos padrões, em uma velocidade louca. Tão louca que ele não aguentou, foi para o meio da pista e fez sinais para o transgressor parar. E ele parou, com muito custo, passando pelo policial, mas parou.
– Tá com pressa, heimmm…
– Não… tô normal…
– Se isso é normal, não sei mais o que é excesso. Os documentos, por favor.
O policial ficou um tempo olhando o documento, conferindo a identidade.
– Muito bem, Sr. 2017. Onde o senhor quer chegar com esta velocidade toda?
– Ao final, apenas isso. E falta pouco, muito pouco.
– Sei… E por que tão apressadinho? Não podia pegar mais leve, mais calmo?
– Sinal dos tempos, tudo está assim, só cumpri com a minha obrigação, apenas isso.
– Certo… sinal dos tempos. O senhor não percebe o perigo que pode provocar na vida das pessoas? Sem dar tempo de a gente pensar, sentir o prazer da passagem do ano. Precisa atropelar quem encontra pela frente?
– O tempo urge, já disse o Chefe. A culpa não é minha, eu apenas passo.
– E nós, como ficamos? Parece que foi ontem que eu estava no supermercado aproveitando a promoção dos panetones com oitenta por cento de desconto. E eles já estão de volta, muito mais caros! O senhor não pensa nas pessoas mais velhas, que estão com o tempo contado, nas crianças que crescem sem a gente nem se dar conta? Pra que andar dessa forma, vertiginosa, louca?? Não dá tempo de curtir, viver, de uma hora para outra, o senhor já passou, e a gente nem viu!
Me desculpe, mas sou obrigado a multá-lo!
– Multar a mim, que já estou no fim dos dias? Não tem um jeitinho? Uma forma de eu compensá-lo?
– Essa não! Agora sim o senhor passou dos limites! Além de levar multa, o senhor vai ser preso!
– Preso? O senhor não sabe com quem está falando. Eu tenho padrinhos influentes no STF. Faça o que quiser, em poucos dias não estarei mais lá, eu te garanto!
– Quer saber, senhor 2017, melhor mesmo o senhor dar no pé, e rápido. Ninguém te aguenta mais. Ô ano difícil!! Vai, cai fora. Vai com Deus.
E o senhor 2017 partiu sem deixar saudades.

A ORIGEM DA CRIAÇÃO

Após milhares de anos de absoluta manipulação compulsória e irrestrita, finalmente as marionetes haviam conquistado sua merecida e sonhada liberdade.
Foi um processo lento e gradual, desde a tomada de consciência até o direito de ir e vir pelas próprias pernas. Para depois descobrirem que existiam outros de sua espécie nas mesmas condições de vida.
Vida. Que dádiva poder usufruir do milagre da vida. Diariamente as marionetes agradeciam e oravam ao seu Criador, Gepeto, pelo dom da vida. E também ao seu filho, Pinocchio, o libertador, o Messias.
Aos poucos foram se organizando, buscando administrar as diferenças naturais de origens, cor, etnias próprias de cada um, para o convívio harmonioso e pacífico da vida em sociedade. Todos com direitos assegurados pelas normas estabelecidas de comum acordo e agrupadas em um documento que eles chamaram de Carta Magna das Marionetes.
No começo, tudo parecia caminhar bem, eles distribuíram funções a cada um que compunha a pequena e promissora comunidade. Quem sairia em busca do sustento, quem ficaria cuidando dos afazeres da casa, direitos e deveres, essas coisas.
Com o tempo, a comunidade foi crescendo, novas necessidades surgiram, alguns se acomodaram em suas funções, o que criou insatisfações aqui e ali. Tinha os que trabalhavam de mais, os que trabalhavam de menos, os que gostariam de expandir seus conhecimentos, suas experiências, os que gostariam de se manter mais reclusos, os que se sentiam injustiçados pelo acúmulo de responsabilidades, entre muitas e mais diversas razões que fomentaram muitas e mais diversas divergências.
O fato é que novos grupos, de interesses comuns, se formaram rompendo relações com o grupo original, saindo para buscar condições melhores em outros locais, próximos ou muito distantes. Alguns tiveram sucesso, se tornaram prósperos, outros não tiveram tanta sorte. Em todos, novas insatisfações surgiam, aqui e ali, entre seus integrantes, e novos grupos, novas comunidades se formavam, aqui e ali.
Com o tempo, começaram a acontecer conflitos de interesses entre as comunidades de marionetes, que nasceram do mesmo pai, Gepeto, e seguiam o mesmo Messias, Pinocchio. A ponto de criarem novos mentores espirituais, louvando outros Senhores, seguindo outros Messias. E em nome deles, começaram os confrontos físicos, depois armados.
Agora, nenhuma das comunidades surgidas daquele primeiro grupo, agraciado com o dom da vida, está mais em total segurança e harmonia. Líderes políticos, sindicais, empresariais, instruem seus seguidores na catequese de lutarem pelos seus direitos constitucionais. E enquanto as comunidades se digladiam, as elites de comando usufruem das benéfices dos cargos que ocupam, saqueando as instituições públicas, mentindo, burlando, entre outros inúmeros golpes.
A insanidade se espalha como vírus, a ponto de, em uma das comunidades, um rico e bem-sucedido marionete, subir no 32° andar de um hotel e começar a disparar contra seus semelhantes, sem razão aparente, aleatoriamente.
E assim a vida segue nesse mundinho. A população de marionetes, ocupada em conseguir sobreviver, apenas corre atrás do rabo, respira, não vive. Sem fios, mas sempre marionetes.
Lá do alto, bem lá do alto, onde os olhos não conseguem ver, o Criador do Gepeto a tudo assiste, intrigado com a capacidade de criar conflitos de sua criação.
“Até quando essas marionetes que Criei vão continuar agindo assim? Acho que não deu certo essa experiência. É hora de partir para outra”.

DOMINGO NO PARQUE

Enio abriu os olhos e os fechou rapidamente, assim que a luz da janela, sem cortinas, invadiu suas retinas. Segundos depois, voltou a abri-los, aos poucos, franziu levemente a testa como quem busca uma informação no seu HD.
Que dia é hoje? Domingo… ele chegou, caceta. Logo o celular vai tocar, Marilda vai me dar um bom dia, com muita alegria, e vai me intimar a levantar da cama, como no domingo passado. E eu vou responder: bom dia, meu amor, já estou quase pronto!
Não sei se vou me acostumar a essa vida saudável, de caminhar no parque, pelas alamedas cheias de árvores, gramas molhadas pelo orvalho doce da manhã.
É verdade que o primeiro domingo da “volta do guerreiro à atividade física”, como ela chamou, foi cheio de emoções, pelo que me lembro.
Coloquei meu Nike Air, “Just do it”, minha camisa branca do timão, assinada pelo Biro-Biro, moletom preto de riscas brancas, da mesma cor da fita na testa, como o Dr. Sócrates usava nas gloriosas tardes de domingo, e desci para cozinha onde sorvi um suco verde batido na hora.
Marilda já me esperava na calcada com sua bike rosa choque. Peguei a minha Tryon XP, que comprei do Carlos quase sem uso, a não ser quando ele a transformou em um varal ergométrico pendurada na área de serviço, e pedalamos juntos as dez quadras para chegar ao parque.
O ar da manhã invadia meus pulmões em golfadas densas e frescas, meus músculos das pernas fatigados pela falta de prática pediam clemência, mas minha resoluta disposição de romper com o sedentarismo não dava bola e os obrigava a continuar.
Chegando ao parque, o primeiro contato com o chão fez minhas pernas bambearem, mas imediatamente me aprumei novamente, levei a bke para o estacionamento e a acorrentei, junto com a da Marilda, com o cadeado recém comprado.
Isso feito, pegamos a alameda, repleta de árvores e começamos a caminhada. A diversidade de transeuntes era espantosa, crianças com triciclos andando com seus pais que trotavam ao lado, senhoras um tanto cheias de vigor e celulites que conversavam animadamente enquanto andavam, casais atléticos que desfilavam elegância e saúde, muita saúde.
Ensaiei alguns movimentos de braços, enquanto movimentava agilmente minhas pernas, para os lados, para cima, dando cutucadas no ar com os cotovelos a 90 graus, mas logo parei sob o olhar reprovador de Marilda.
Na segunda volta do circuito, confesso que meu vigor escoava pedindo água, enquanto Marilda esbelta, altiva, se mantinha tal qual chegou, inspirando e expirando pelas narinas, sem um pingo de suor ou sinal de cansaço.
Tentei acompanhar, mas minha coordenação motora começou a dar os primeiros sinais que estava para entrar em pane. Senti um desconforto visual ao perceber uma espiral de tons escuros bloquear minha visão. Meus músculos das pernas se rebelaram de vez e demonstraram não estar mais interessados em sustentar o resto do corpo. Foi quando cai.
Marilda depois me contou que chamou o seguro saúde que providenciou a ambulância que nos levou, assim como as bikes, de volta para casa.

Enio agora olhava para o teto do quarto. Ficou alguns minutos nesta posição. Em seguida, pegou o celular que recarregava sobre o criado e o desligou. Ato contínuo, deitou sobre o travesseiro e colocou o outro sobre a cabeça.
E esta segunda-feira que não chega!!!