EXCESSO DE VELOCIDADE

O policial estava com o radar montado, monitorando a velocidade.
Olhar atento, vez ou outra um incauto excedia o limite. O alarme ecoava, ele se concentrava no transgressor, a foto era tirada, penalidade registrada.
Ele agora testava um novo tipo de radar, parecia uma luneta com manopla para a mão. Media a velocidade em uma distância maior, e de forma mais precisa. Era a primeira vez que usava.
O outro sobre o tripé continuava operando. Este de mão era um brinquedinho novo, que ele apontava a esmo, buscando alvos distantes.
Foi quando focalizou, lá longe, alguém absolutamente alucinado, fora dos padrões, em uma velocidade louca. Tão louca que ele não aguentou, foi para o meio da pista e fez sinais para o transgressor parar. E ele parou, com muito custo, passando pelo policial, mas parou.
– Tá com pressa, heimmm…
– Não… tô normal…
– Se isso é normal, não sei mais o que é excesso. Os documentos, por favor.
O policial ficou um tempo olhando o documento, conferindo a identidade.
– Muito bem, Sr. 2017. Onde o senhor quer chegar com esta velocidade toda?
– Ao final, apenas isso. E falta pouco, muito pouco.
– Sei… E por que tão apressadinho? Não podia pegar mais leve, mais calmo?
– Sinal dos tempos, tudo está assim, só cumpri com a minha obrigação, apenas isso.
– Certo… sinal dos tempos. O senhor não percebe o perigo que pode provocar na vida das pessoas? Sem dar tempo de a gente pensar, sentir o prazer da passagem do ano. Precisa atropelar quem encontra pela frente?
– O tempo urge, já disse o Chefe. A culpa não é minha, eu apenas passo.
– E nós, como ficamos? Parece que foi ontem que eu estava no supermercado aproveitando a promoção dos panetones com oitenta por cento de desconto. E eles já estão de volta, muito mais caros! O senhor não pensa nas pessoas mais velhas, que estão com o tempo contado, nas crianças que crescem sem a gente nem se dar conta? Pra que andar dessa forma, vertiginosa, louca?? Não dá tempo de curtir, viver, de uma hora para outra, o senhor já passou, e a gente nem viu!
Me desculpe, mas sou obrigado a multá-lo!
– Multar a mim, que já estou no fim dos dias? Não tem um jeitinho? Uma forma de eu compensá-lo?
– Essa não! Agora sim o senhor passou dos limites! Além de levar multa, o senhor vai ser preso!
– Preso? O senhor não sabe com quem está falando. Eu tenho padrinhos influentes no STF. Faça o que quiser, em poucos dias não estarei mais lá, eu te garanto!
– Quer saber, senhor 2017, melhor mesmo o senhor dar no pé, e rápido. Ninguém te aguenta mais. Ô ano difícil!! Vai, cai fora. Vai com Deus.
E o senhor 2017 partiu sem deixar saudades.

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A ORIGEM DA CRIAÇÃO

Após milhares de anos de absoluta manipulação compulsória e irrestrita, finalmente as marionetes haviam conquistado sua merecida e sonhada liberdade.
Foi um processo lento e gradual, desde a tomada de consciência até o direito de ir e vir pelas próprias pernas. Para depois descobrirem que existiam outros de sua espécie nas mesmas condições de vida.
Vida. Que dádiva poder usufruir do milagre da vida. Diariamente as marionetes agradeciam e oravam ao seu Criador, Gepeto, pelo dom da vida. E também ao seu filho, Pinocchio, o libertador, o Messias.
Aos poucos foram se organizando, buscando administrar as diferenças naturais de origens, cor, etnias próprias de cada um, para o convívio harmonioso e pacífico da vida em sociedade. Todos com direitos assegurados pelas normas estabelecidas de comum acordo e agrupadas em um documento que eles chamaram de Carta Magna das Marionetes.
No começo, tudo parecia caminhar bem, eles distribuíram funções a cada um que compunha a pequena e promissora comunidade. Quem sairia em busca do sustento, quem ficaria cuidando dos afazeres da casa, direitos e deveres, essas coisas.
Com o tempo, a comunidade foi crescendo, novas necessidades surgiram, alguns se acomodaram em suas funções, o que criou insatisfações aqui e ali. Tinha os que trabalhavam de mais, os que trabalhavam de menos, os que gostariam de expandir seus conhecimentos, suas experiências, os que gostariam de se manter mais reclusos, os que se sentiam injustiçados pelo acúmulo de responsabilidades, entre muitas e mais diversas razões que fomentaram muitas e mais diversas divergências.
O fato é que novos grupos, de interesses comuns, se formaram rompendo relações com o grupo original, saindo para buscar condições melhores em outros locais, próximos ou muito distantes. Alguns tiveram sucesso, se tornaram prósperos, outros não tiveram tanta sorte. Em todos, novas insatisfações surgiam, aqui e ali, entre seus integrantes, e novos grupos, novas comunidades se formavam, aqui e ali.
Com o tempo, começaram a acontecer conflitos de interesses entre as comunidades de marionetes, que nasceram do mesmo pai, Gepeto, e seguiam o mesmo Messias, Pinocchio. A ponto de criarem novos mentores espirituais, louvando outros Senhores, seguindo outros Messias. E em nome deles, começaram os confrontos físicos, depois armados.
Agora, nenhuma das comunidades surgidas daquele primeiro grupo, agraciado com o dom da vida, está mais em total segurança e harmonia. Líderes políticos, sindicais, empresariais, instruem seus seguidores na catequese de lutarem pelos seus direitos constitucionais. E enquanto as comunidades se digladiam, as elites de comando usufruem das benéfices dos cargos que ocupam, saqueando as instituições públicas, mentindo, burlando, entre outros inúmeros golpes.
A insanidade se espalha como vírus, a ponto de, em uma das comunidades, um rico e bem-sucedido marionete, subir no 32° andar de um hotel e começar a disparar contra seus semelhantes, sem razão aparente, aleatoriamente.
E assim a vida segue nesse mundinho. A população de marionetes, ocupada em conseguir sobreviver, apenas corre atrás do rabo, respira, não vive. Sem fios, mas sempre marionetes.
Lá do alto, bem lá do alto, onde os olhos não conseguem ver, o Criador do Gepeto a tudo assiste, intrigado com a capacidade de criar conflitos de sua criação.
“Até quando essas marionetes que Criei vão continuar agindo assim? Acho que não deu certo essa experiência. É hora de partir para outra”.

DOMINGO NO PARQUE

Enio abriu os olhos e os fechou rapidamente, assim que a luz da janela, sem cortinas, invadiu suas retinas. Segundos depois, voltou a abri-los, aos poucos, franziu levemente a testa como quem busca uma informação no seu HD.
Que dia é hoje? Domingo… ele chegou, caceta. Logo o celular vai tocar, Marilda vai me dar um bom dia, com muita alegria, e vai me intimar a levantar da cama, como no domingo passado. E eu vou responder: bom dia, meu amor, já estou quase pronto!
Não sei se vou me acostumar a essa vida saudável, de caminhar no parque, pelas alamedas cheias de árvores, gramas molhadas pelo orvalho doce da manhã.
É verdade que o primeiro domingo da “volta do guerreiro à atividade física”, como ela chamou, foi cheio de emoções, pelo que me lembro.
Coloquei meu Nike Air, “Just do it”, minha camisa branca do timão, assinada pelo Biro-Biro, moletom preto de riscas brancas, da mesma cor da fita na testa, como o Dr. Sócrates usava nas gloriosas tardes de domingo, e desci para cozinha onde sorvi um suco verde batido na hora.
Marilda já me esperava na calcada com sua bike rosa choque. Peguei a minha Tryon XP, que comprei do Carlos quase sem uso, a não ser quando ele a transformou em um varal ergométrico pendurada na área de serviço, e pedalamos juntos as dez quadras para chegar ao parque.
O ar da manhã invadia meus pulmões em golfadas densas e frescas, meus músculos das pernas fatigados pela falta de prática pediam clemência, mas minha resoluta disposição de romper com o sedentarismo não dava bola e os obrigava a continuar.
Chegando ao parque, o primeiro contato com o chão fez minhas pernas bambearem, mas imediatamente me aprumei novamente, levei a bke para o estacionamento e a acorrentei, junto com a da Marilda, com o cadeado recém comprado.
Isso feito, pegamos a alameda, repleta de árvores e começamos a caminhada. A diversidade de transeuntes era espantosa, crianças com triciclos andando com seus pais que trotavam ao lado, senhoras um tanto cheias de vigor e celulites que conversavam animadamente enquanto andavam, casais atléticos que desfilavam elegância e saúde, muita saúde.
Ensaiei alguns movimentos de braços, enquanto movimentava agilmente minhas pernas, para os lados, para cima, dando cutucadas no ar com os cotovelos a 90 graus, mas logo parei sob o olhar reprovador de Marilda.
Na segunda volta do circuito, confesso que meu vigor escoava pedindo água, enquanto Marilda esbelta, altiva, se mantinha tal qual chegou, inspirando e expirando pelas narinas, sem um pingo de suor ou sinal de cansaço.
Tentei acompanhar, mas minha coordenação motora começou a dar os primeiros sinais que estava para entrar em pane. Senti um desconforto visual ao perceber uma espiral de tons escuros bloquear minha visão. Meus músculos das pernas se rebelaram de vez e demonstraram não estar mais interessados em sustentar o resto do corpo. Foi quando cai.
Marilda depois me contou que chamou o seguro saúde que providenciou a ambulância que nos levou, assim como as bikes, de volta para casa.

Enio agora olhava para o teto do quarto. Ficou alguns minutos nesta posição. Em seguida, pegou o celular que recarregava sobre o criado e o desligou. Ato contínuo, deitou sobre o travesseiro e colocou o outro sobre a cabeça.
E esta segunda-feira que não chega!!!

COMO TATUAGEM

Não se pode negar o direito de sermos diferentes. Do contrário, se nega o direito à liberdade. Isso vale para a roupa que você veste, o brinco que pendura na orelha ou no lugar que escolher, e claro, para a tatuagem que escolher, no lugar que escolher.
Confesso que os tatuados andam me surpreendendo, pela quantidade de integrantes dessa comunidade, pela variedade temática das tatoos, e claro, pelas histórias que tenho ouvido.
Apostar tendo como pagamento uma tatuagem é um daqueles erros que vai ficar para sempre marcado.
O Will que o diga.
Inglês, fanático por tênis, na arquibancada da final de Wimbledon, que não via um britânico vencer o torneio desde 1936, apostou uma tatoo no Djokovic contra seu conterrâneo Murray. A tatuagem seria do rosto do Murray em sua bunda. Murray quebrou o jejum de 77 anos e hoje Will tem o seu rosto levantando o troféu nas nádegas.
A pergunta recorrente quando se vê uma tatuagem em alguém é: “Por que?” E por mais que se explique, quem não sentiu o motivo do impulso de gravar aquela marca para a vida toda na pele, não vai conseguir entender.
Tem os que desejam gravar no seu corpo a eternidade do amor que uma hora segue outro rumo. E o coração com “Ale” desenhado no ombro, anos depois virou um coração com “Alegria”, que nunca deve partir.
Certa vez, conversando com um artista que esculpia imagens incríveis em madeira, perguntei como ele conseguia produzir algo tão lindo de um mero tronco de árvore morto. Ele me respondeu com a simplicidade e grandeza dos gênios: “a imagem já está lá dentro, eu só tiro ela para fora”.
Muitas vezes, aquela marca estampada na pele já está gravada intimamente dentro da pessoa, o tatuador apenas a deixa visível.
É verdade que nem sempre as coisas saem como esperado, você não explica bem o que quer, quem vai fazer o trabalho não entende direito o que foi pedido, e o estrago fica gravado no corpo, marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva.
O Bruno que o diga.
Fazia tempo que ele estava alimentando a ideia de fazer uma tatuagem, mas faltava coragem, talvez convicção, apesar de já ter indício do tema, uma palavra em hebraico. Tinha que ser em hebraico.
Quis o destino que o processo tivesse início naquela noite de sexta, em um bar da Vila Madalena. Semana de trabalho duro, muito, era hora de enfiar o pé na jaca. E ganhar uma tatoo? Isso.
O grupo do escritório de arquitetura sentou próximo da janela e todos beberam muito. E mais um pouco. Estavam todos de Uber, então a volta era garantida, sem problema com bafômetro. O papo rolou sobre todos assuntos, inclusive tatuagem. Por sorte, ou azar, tinha um tatuador na mesa ao lado, que também colecionava bolachas de chopes no atacado.
Bruno acordou de supetão, não lembrava como tinha chegado em casa, nem como a noite no bar da Vila Madalena havia terminado. A cabeça doía, mas o que estava incomodando mesmo era algo na nuca. Tocou com os dedos e sentiu um plástico grudado. Deu um pulo e correu para olhar no espelho do banheiro. Uma tatuagem, vários pontos escuros, pele avermelhada. Correu pro celular.
– Fala Brunão, que noite, não??!!
– Eu estou com uma tatuagem!!! Um monte de pontos!!!!!
– Foi você que pediu. A palavra “Sempre” em braile.
– Sempre???? Braile????

VOLTANDO PRA CASA

Tem horas que olho para trás
O que eu fiz, de onde parti
Dos amores que tive, muito tempo faz
Pessoas vindo e voltando
Passando, ficando

Ontem rabisquei minha vida
Traços finos, grossos, banais
Amores, dores, iguais
Vermelhos, azuis, lilás
Borrados, rasgados e tais
Mas vivos, intensos, fugaz

Rick registrava algumas frases soltas, que pipocavam enquanto digitava no celular. Um amigo querido, de infância, de muitas histórias e caminhadas a pé, indo para escola, clube, depois trabalho, havia feito a viagem de volta. Momento difícil, seja qual for a intensidade da relação. Dias antes tinha sido a mãe de um outro amigo. Agora soube que a ex sogra também parecia estar no trajeto. Que momento era esse? Valia uma reflexão, pelo menos. E ele fazia da forma como sabia, para o Rick tudo podia, uma hora, virar música.
Seu olhar foi para o céu e desta vez pipocaram as estrelas.
Quantos será que podem dizer que são filhos deste planeta? Com certeza uma parte não é. E se muitos não são, de onde são?
Rick olha aqueles pontos brilhantes sobre ele e seu pensamento seguia sua viagem interplanetária.
Se não sou daqui, de onde sou? A vida anda tão massacrante que tem hora que voltar pra casa seria uma boa.
Voltar pra casa.
Tudo o que a gente quer, depois de um dia duro de trabalho, é voltar pra casa.
Voltar para quem te espera, de duas ou quatro patas. Voltar para o seu canto, para a sua poltrona.
Tem hora, por melhor que esteja onde você está, que voltar é tão ou mais do que o momento de ir.
Apesar deste planeta ser lindo, seus habitantes estimulam a gente a querer voltar ao nosso planeta de origem. Qual seria o meu? Podia ser Júpiter.
Quando o Rick viajava, ele viajava mesmo, na maionese ou onde fosse. Seus olhos saltavam de uma estrela para outra e seu pensamento voava junto.
São muitos lares lá em cima!
Nosso sentimento de posse é tão forte que muitas vezes não pensamos o que é melhor para a pessoa, queremos o que é melhor para a gente. Pelo simples conforto de termos esse alguém permanente ao nosso lado. E no fundo, o que ele quer é simplesmente voltar para casa. Cada um tem o seu momento, todo mundo vai voltar.
Valeu meu amigo, volta pra casa.

FRIO

Diferente do verão, esta é uma época do ano onde as nossas fragilidades parecem vir à tona. Talvez pelo cenário cinza que diminui o astral, potencializa a carência, a verdade é que sentir frio escancara a nossa vulnerabilidade como ser. Para alguns que se sentem poderosos, muito acima desses meros mortais que habitam o planeta, sentir frio poderia servir para baixar um pouco a bola, demonstrar sua debilidade. Mas até este momento é usado para demonstrar seu poderio com suntuosos artigos de combate às baixas temperaturas.
E por mais difícil que o momento esteja, dificuldades financeiras, instabilidade profissional, oscilações de receita frente às inevitáveis despesas, chegar em casa e se abrigar em várias camadas de cobertas na hora de dormir explicita nossa melhor condição em relação aos que sofrem ao relento.
Era nisso que Alberto pensava depois de tomar seu chá de gengibre e mergulhar sob dois edredons. A temperatura lá fora tinha batido recorde do ano. E se comparar com o inverno passado, que tinha caído numa quinta-feira, experimentar quatro dias seguidos de frio era prova de titã em sua cidade, conhecida como a boca do inferno, dada suas altas temperaturas durante todo ano.
Em meio à penumbra do quarto, iluminado apenas pela claridade da lua prestes a se tornar cheia, Alberto pensava, enquanto o sono teimava em não vir. Estava muito frio, devia ser isso, o sono também devia estar recolhido.
Que puta frio! Se estiver assim amanhã cedo, não saio daqui por nada!! Como devem estar aqueles dois que dormem na calçada, na quadra de baixo? Caceta! Se aqui debaixo está assim, como deve estar lá?? Tinha um monte de jornal sobre a espuma deles. Mas com a garoa que caiu deve ter virado uma meleca. Que merda! E eu aqui.
O sono não aparecia e Alberto só com os olhos de fora do edredom pensava enquanto olhava para a janela, com a lua quase cheia.
O desconforto causado pelo clima não se compara ao causado pela frieza de alma. Vivemos uma época de crise econômica, política, moral, mas vivemos também um momento de crise de solidariedade. Talvez porque anda tão difícil cuidar de si, cuidar da própria sobrevivência, e aí, exigir que tenhamos atenção com quem não tem nenhuma atenção é pedir demais. Ou não. É nessa hora que o calor humano aquece aqueles que mais precisam. Alberto sentia um frio na barriga ao pensar nisso.
Será que não dá pra fazer nada? A Ligia me falou de um grupo dela que sai à noite distribuindo agasalhos, sopa. Quem sabe. Não resolve, porque no dia seguinte continua a mesma meleca. Mas ajuda. Pelo menos vou dormir sem sentir esse frio na barriga.
Muitas vezes, não falta o sentimento de solidariedade. Falta, talvez, encontrar uma forma, um caminho de colocar na prática. Em algum lugar vai ter quem já pratica de forma efetiva, que se juntou a outros que foram dormir sob uma pilha de cobertas e tiveram suas consciências cutucadas pela falta que outros passam.
Não somos uma humanidade perdida pela falta de essência, estamos desorientados pelas porradas que nos deixam sem rumo. Basta parar, pensar para encontrar um caminho. Alberto parecia ter encontrado um. Seu coração aqueceu o corpo, logo o sono iria pular das cobertas.
Amanhã vou ligar para a Ligia.

QUE CAZZO!

Final de domingo, o controle corre os canais me mostrando o que não estou perdendo na TV. Paro no canal de esportes que naquele momento mostrava uma briga entre torcidas na arquibancada de um estádio goiano, Vila Nova e Goiás, clássico local.
Um torcedor no chão desmaiado, outros tantos em cima dele chutando o corpo inerte. Corta para um pai com um menino no colo, ambos com os braços levantados, como se rendessem aos policiais que corriam como baratas tontas sobre o cimento. Uma cena triste, deprimente, pessoas que não lutam pelos seus direitos como cidadãos, eleitores, brigando por uma cor de camisa, manchada de sangue. Sob as vistas e os braços assustados em pé de uma criança de cinco anos.
O controle ficou sobre o sofá, minha mão sobre a boca, me peguei pensando que cazzo acontece!
Não era final de campeonato, nem mesmo da Série A. E mesmo que fosse.
Que cazzo!
Onde foi que o trem descarrilhou?
Não que este tipo de coisa seja novidade, para uma humanidade que se diz humana e que, há milênios, enchia circos de gladiadores obrigados a lutar até a morte. Com arquibancada lotada torcendo, vibrando. E que hoje se coloca frente à TV e vibra com o UFC. Nada mais do que natural. Está no sangue. Que aliás tem jorrado sem pudor, nesses séculos todos.
Mas que cazzo que não se aprende nada com o passado? Que não se anda para frente? Que cazzo de ser é esse que não direciona a mesma energia de indignação, de revolta, para cobrar dos seus governantes mais ética, mais vergonha, mais compromisso com suas obrigações?
Por outro lado, que consciência tem um ser como esse, que mata um torcedor como ele, apenas pelo fato de ser de time contrário? Como exigir dele discernimento na hora de votar, postura de como se comportar na hora de agir, equilíbrio na hora de enfrentar adversidades?
Não vivemos apenas uma crise econômica ou política. Vivemos uma crise de identidade, de bom senso, de razão, de moral.
E ao não termos postura na hora de agir, não temos como exigir postura daqueles que governam em nosso nome, eleitos pela nossa escolha. Por essa razão, cada um defende o seu bandido favorito. Para tentar, ao menos, justificar a sua escolha. Para se sentir certo em algo já que no em volta tudo anda dando errado.
Que cazzo!
Quando um pai leva sua criança de cinco anos para ver de perto os heróis de calção e chuteiras, não imagina estar arriscando sua cria num campo de batalha de vida ou morte. Apenas gostaria de passar a sua paixão de escudo para um herdeiro de sangue.
Ao invés disso, este momento único, estreito, emocionante, que contribui para apertar os laços entre essas gerações, acaba por dar um nó na garganta, desespero no coração que empurra os braços para cima em rendição incondicional, constrangedora.
Que cazzo de mundo é este?

A TRILHA DO DEFUNTO

Mochila nas costas, dei uma gingada no corpo pra testar o peso… pesada, não ia ser nada fácil vencer os quase trinta quilômetros até Piranguçu. Olhei pro Ademir, que tinha inventado toda aquela história, ele piscou o olho daquele jeito dele.
Bora, Henrique, a trilha é pra ser trilhada…
Balancei a cabeça, já ciente que o meu programa Xavante de final de semana ia render muita conversa e suor.
Cinco horas da manhã. Não conseguia entender porque não podia ser um passeio normal, mais tarde, de carro, cacete! Nessa hora, até os galos estavam dormindo. Até o dono da pousada estava dormindo. Ainda bem que ele tinha deixado uma garrafa de café e uns biscoitos pra dar uma levantada. Olhei de novo para o Ademir e ele estava todo elétrico, esfregando as mãos, pronto pra pegar estrada. E lá fomos nós.
O ar frio da madrugada, cheiro de terra molhada, lua cheia iluminando parcialmente o caminho, davam para o desafio um clima de aventura da terceira idade. Comecei a entrar no espírito em meio a alguns tropeços e longos suspiros e puxadas de ar, a subida era brava.
Andamos por algumas horas, o dia já amanhecia, o visual era realmente deslumbrante, bem diferente da subida da Consolação com avenida Paulista, quando levava minha filha para a escola.
Mais alguns quilômetros e chegamos à nossa primeira parada prevista, Chalé da Paz, onde tivemos nossa credencial de peregrino carimbada pelo Pelezinho, o Luiz Paulo, proprietário do lugar. Eram quase dez da manhã e a necessidade de um líquido produzido da cevada já se fez presente.
O Ademir parecia que tinha feito uma caminhada à padaria perto da casa dele. Eu estava exausto, a mochila já pesava uma tonelada, mas a beleza do lugar, o som da cachoeira e o gole da cerveja gelada revigora todo cansaço.
Foi quando o seu José chegou. Um senhor de 70 anos com uma agilidade maior que a minha.
– Estão indo para Piranguçu, pela Trilha do defunto?
Trilha do defunto??? Olhei para o Ademir e ele, todo simpático confirmou.
– Isso mesmo. Rio Sapucaí, Bairro São Bernardo, descendo para Piranguçu.
– Ô Ademir, que raio de trilha do defunto é essa? Perguntei, sem entender.
– Ahh… Henrique, como eu sei que você não curte essas coisas de morte, defunto, velório, pulei essa parte.
Seu José entrou na conversa, rindo.
Ihhh, já carreguei muito defunto nessa trilha.
– Como é??? Perguntei olhando sem entender nada, para ele.
– É que aqui, em São Bernardo, não tinha cemitério. Então a gente era obrigado a subir o morro e descer para Piranguçu para enterrar os falecido. E não tinha como ir de carro. Então a gente levava. Pegava uma rede, colocava o caixão nela, amarrava no bambu e a gente ia de pé, com o pau no ombro. Fiz muito isso.
– Quantos quilômetros??
– Uns dezessete, respondeu seu José sorrindo. E completou.
Teve uma vez que nóis tava subindo e ouvimo um arroto. Eu senti de onde tinha vindo, mais num creditei. Perguntei: foi você Tonho? Não. Você Zé? Não. Foi ocê, Firmino?? Não. Nóis sortemo a rede e saimo correndo. O caixão foi deslizando pela terra, deu um trupicão e o falecido pulou pra fora.
– E aí????
– Aí que os que vinha atrás pegaro ele, uai. Nóis corremo, hehehe… Agora os defunto tão tudo enjoado, só andam de carro.

A HORA DO ADEUS

Bom dia, meu querido diário. Hoje acordei preocupada, estou perto de tomar uma decisão difícil e, ao me abrir com você, consigo organizar meus pensamentos para assim agir da melhor maneira.
Você melhor do que ninguém sabe com quem ando, pra cima, pra baixo.
É minha companhia direto, onde eu for, ele vai comigo. Quantos anos? Nossa, muitos, muitos mesmo. Como passa rápido! Fecho os olhos e me lembro perfeitamente a primeira vez que eu o vi. Foi no shopping, estava sozinha, tinha acabado de tomar um lanche quando dei de cara com ele, dentro de uma loja. Paixão à primeira vista mesmo, incrível!
Fazia pouco tempo que tinha terminado um relacionamento de anos, estava pra baixo, sem vontade de fazer nada, era um 12 de junho, como hoje. Eu andando sozinha pela primeira vez depois de mais uma década, não dá pra esquecer. Não dá.
O Carlos me sacaneou legal, paciência, passou. Amor morto, amor reposto.
De lá para cá, ele sempre comigo. Nos passeios, cinema, teatro, não largo!
Ele que me dá dicas daquilo que não sei, me mostra os caminhos, me lembra até a hora de tomar o remédio.
Tem quem não entende e acha que virou vício. Inveja, só pode ser.
O problema é que nada é para sempre, impressionante.
No começo é novidade, quanto mais a gente conhece, mais a gente apaixona.
Depois vai entrando na rotina. É legal, claro, mas há o desgaste natural, não dá para negar. É assim com tudo.
Ultimamente, tenho percebido que ele já não tem o mesmo espaço para mim. Memória falhando, a idade pesa, rss… Droga!
Que difícil!
Tem hora que me pego olhando pra ele, pensando em alguma alternativa. Fico um tempo vendo as fotos, ele sempre comigo, sem falhar. Momentos tão lindos, marcantes. Difícil descartar, mas chega uma hora que é inevitável, acontece. Mais do que isso, é necessário. Preciso de espaço e ele simplesmente não me dá mais.
Incrível esse processo. A gente não tem. Aí conhece, gosta, apaixona e deseja e quer ter de qualquer jeito. Acha que não vive mais sem.
Aí vem o tempo, sempre ele. Aquela novidade, não é mais novidade. Passa a fazer parte do dia a dia. Começa a perder o valor, aquele tesão do início.
O que me mata mesmo é esse meu senso de fidelidade. Sou fiel, acima de tudo. Até à minha marca de sorvete, de iogurte, não vou ser com quem está comigo o tempo todo?
Mas aí você sai pra dar uma volta, dá de cara com um que você não conhecia, apaixona e parece que começa tudo de novo. Pensa, avalia trocar, mas falta coragem. Merda!
Não tem jeito. Agora escrevendo percebo que acabou. Acabou!
Vou pegar o carro e vou pro shopping, agora! Vou na mesma loja da nossa primeira vez. Resolvido.
Adeus iPhone 5. Que venha o iPhone 7. Mas iPhone, porque eu sou fiel!

CORTANDO CAMINHO

Trânsito parado, atrasado para a reunião, olho para o cruzamento à direita pensando numa alternativa de cortar caminho e reduzir meu atraso.
Cortar caminho. Tem hora que é a única alternativa que resta para não perder mais tempo. Enquanto a gente pensava em cortar caminho apenas dos nossos trajetos de ir e vir, tudo bem, racionalizar sempre é bom. Mas parece que estamos nos especializando na “cultura” do corte de caminho. Cabral foi o primeiro que pensou em cortar e caiu aqui. O Xará dele está preso de tanto cortar caminho, sangrar as contas públicas e encher o bolso.
Cortar caminho nos estudos, na escalada profissional, nas conquistas pessoais, até mesmos nos games que jogamos nas horas vagas.
Em uma maratona de Sioux, EUA, um sudanês venceu a prova quebrando o recorde do percurso. Venceu? Não. Os fiscais desconfiaram do tempo da prova, checaram e descobriram que ele cortou caminho. Vitória cancelada. Mas nem sempre existem fiscais. Ainda bem. Para muitos, mais ainda bem ainda!
Na década de 90 havia um game chamado DOOM, onde você enfrentava monstros, barris com lixo tóxico e mais uma série de desafios em meio a labirintos, áreas secretas, para finalmente encontrar o “Exit” e passar para a próxima fase, sem morrer, claro. Até que um hacker desenvolveu uma senha que burlava o jogo e dava imortalidade ao jogador. Game zerado, cortando caminho. O mérito? Era apenas um jogo, diversão sem importância.
Atualmente existe, ainda, um outro game, que mescla o virtual com o real, Pokémon Go. Uma criação complexa, genial, que tem como princípio básico fazer com que o jogador saia de casa para jogar. Para isso, faz uso de alta tecnologia, Google Map, coordenadas de GPS, ginásios virtuais para combate, caça de Pokémon pelas ruas da cidade, tudo junto e misturado, em uma concepção realmente incrível, repleta de detalhes e elementos gráficos, sonoros, brilhante. Mais uma vez surge um hacker que burla o jogo, quebra as regras, permite que você jogue de sua casa e cace os Pokémon na sua cidade ou em qualquer cidade do planeta, entre outras coisas. Mérito das conquistas no jogo, passagem de fase, index de Pokémon completo? Nenhum. Mas todo mundo está cortando caminho, “se você não fizer vai ficar pra trás” e é apenas um jogo, diversão sem importância, dizem novamente os que burlam as regras.
Aí, a gente tira os olhos dos games e abre os olhos para este país, completamente derrubado eticamente, moralmente. Um país que jogou por terra todos os princípios de conduta, de cumprimento às regras ao ser comandado por verdadeiras quadrilhas de cortadores de caminho.
Cortadores de caminho eleitos democraticamente por nós. Cortadores de caminho que focam apenas as suas necessidades de conquistas, não importa o “como”. Cortadores de caminho que visam chegar aos seus objetivos da forma mais direta e rápida possível. Cortadores de caminho que se justificam dizendo que está todo mundo fazendo e quem não faz é que é idiota. Cortadores de caminho que ainda conseguem ser defendidos pelos partidários de escudo, de camisa, de seita. Cortadores de caminho que dizem não saberem de nada, mas que se comprometem delatar, os até então companheiros, por alguma contrapartida.
Aí, a gente chega à conclusão que cortar caminho neste país é a regra.
Cortar caminho neste país faz parte da índole, do DNA. Afinal, só um povo corrupto tem um governo corrupto.
Mas tudo bem, é apenas um jogo. Mesmo que seja o jogo da vida.